Walt Disney World – International College Program 2003/2004

Eu sempre quis conhecer o mundo, mas me faltava verba. Então desde cedo entendi que tinha que arranjar maneiras alternativas de bancar os meus sonhos. Foi assim que, sem querer, me deparei com o programa de trabalho de férias na Disney quando eu ainda estava no colégio. Eu sabia que ia participar daquilo quando estivesse na faculdade, o quanto antes!

Mas ai quando entrei na faculdade meu pai estava doente e eu nem lembrei disso, não corri atrás e essa informação já estava se perdendo no meio das turbulências da vida quando uma amiga da minha sala me chamou pra ir com ela na agência de viagens perguntar como participar do programa.

Tipo de viagem: Trabalho remunerado durante as férias de fim de ano
Duração: 2 meses e meio
Destino: Estados Unidos
Acomodação: Residência na propriedade Disney
Custos: Seguro viagem + Passagem aérea + Visto
Requisitos: inglês intermediário, ter completado pelo menos o 1º ano da faculdade na data da viagem

Naquela época as informações não eram tão fáceis de ser encontradas assim, por isso fomos até a agência pra perguntar como participar. Fomos informadas que o período de seleção começaria lá por abril ou maio, que precisaríamos participar de palestras pra poder conseguir marcar entrevistas e ai então passar pelo processo de seleção.

Deixamos nossos nomes e na época fomos avisadas da palestra. A primeira palestra foi informativa, de como aconteceria a seleção e do que esperar do trabalho na Disney. Explicaram que no fim daquela palestra marcaríamos entrevista na agência, que seriam feitas pela própria, mas em inglês. Era pra levar currículo traduzido e se portar como uma entrevista como qualquer outra.

No dia marcado, eu e minha amiga fomos até a sede da empresa e encontramos várias pessoas esperando também. Algumas estavam bem tensas e todo mundo se perguntava como estavam sendo as entrevistas. Claro que um processo de entrevista nunca é a coisa mais fácil do mundo, mas foi um bate papo bem tranquilo, mais para avaliar se os candidatos sabiam mesmo falar inglês do que avaliar o perfil.

Depois dessa primeira seleção, os candidatos que passaram foram chamados para uma segunda palestra. essa palestra já era com o pessoal da Disney, que veio explicar melhor como seria o trabalho, a vida, o dia a dia durante o programa. A Disney oferece a vaga e também organiza a acomodação com o transporte na Florida. Existem vários postos de trabalho disponíveis, que você lista em ordem de preferência, e na seleção eles avaliam qual mais se encaixa com seu perfil. Sua posição exata você só sabe quando chega, mas já sai do Brasil sabendo qual a área de atuação (vendas, atrações, etc). Na minha época as opções eram: Personagem (mas eles que tinham que oferecer, não era uma posição aberta), Merchandise (vendas), Attractions (abrange desde os brinquedos até entradas dos parques e direção dos trens do estacionamento), Custodial (limpeza) e Food & Beverage. A acomodação é organizada de acordo com o parque que você vai trabalhar. São diversos condomínios, com academia e piscina, com apartamentos de diversas configurações (os valores variam de acordo com a quantidade de pessoas na sua casa) e o transporte pros parques e pro supermercado são oferecidos “sem custo” (inclusos no aluguel pago, claro).

No fim da segunda palestra foram marcadas as entrevistas com os recrutadores da Disney, que vem para o país para fazer isso exclusivamente. Nessa entrevista não tem mesmo como enrolar se não souber falar inglês. Essa sim é uma entrevista mais parecida com uma entrevista de emprego, embora seja feita em dupla. Perguntam sobre porque você quer participar do programa, suas experiências, pra avaliar qual o seu perfil. É ali que decidem qual posição você vai se encaixar. Apesar do peso de ser uma entrevista “real” os recrutadores são super simpáticos e tentam deixar todos bem a vontade.

Depois dessa entrevista é necessário esperar o processo acabar em todos os outros lugares do Brasil. Na minha época só tinha palestra em São Paulo e no Rio, mas eram muitas pessoas e eu lembro de só receber a resposta muitas semanas depois. Via telefone. Acho que hoje em dia é via sistema ou e-mail.

Mesmo assim, o dia que você passa na entrevista e recebe o resultado é inesquecível. Lembro que estava indo pra faculdade mais cedo, ainda no ônibus, quando o celular tocou e me deram a notícia. Quis gritar e comemorar, mas tive que esperar descer pra achar minha amiga e celebrarmos juntas o resultado (ela também tinha passado). Nessa ligação também informam qual a data de embarque e se você pode ir. Quando a gente quer algo, nada é obstáculo.

Os passos seguintes parecem que passam tão rápido, mas o tempo parece que não anda, por causa da ansiedade. Tivemos que pedir carta da faculdade provando que estávamos matriculadas e que ainda tínhamos outros semestres para concluir o curso, que era presencial e que por isso teríamos que retornar se quiséssemos nos formar. Parece uma maluquice, mas é uma formalidade pra provar que você não vai migrar ilegalmente. Também recebemos a carta de aprovação e a agência nos ajuda a aplicar para o visto de trabalho temporário. Na época eles conseguiram organizar alguns grupos para o consulado (que ainda era nos Jardins em SP) e no dia tinha uma quantidade absurda de pessoas naquele lugar (tinha um cara muito indignado de ter que fazer sua entrevista naquele dia, no meio daquela garotada ensandecida toda!). Mas foi um processo bem tranquilo, no dia peguei um oficial super simpático, mal me fez perguntas e já aprovou meu visto. Em meu favor estava o fato de ter todos os documentos direitinho – carta da faculdade, IR da minha mãe, carta da Disney – e o fato de já ter tido um visto anterior, além de outra viagem pro exterior. Mas já fiquei sabendo de gente com visto negado sem aparente razão.

Dali em diante foi esperar. A agência organizou o seguro e o aéreo, escolhi voltar uns dias depois do fim do programa e ai foi partir pro abraço.

Na mala, levei roupa social pra participar dos treinamentos, sapato, várias roupas casuais e algumas de balada e só, nada que não levaria numa viagem de férias, por exemplo. As roupas de cama e banho seriam oferecidas localmente. Teve quem levasse comida, tipo miojo, para os primeiros dias, mas eu me virei nesse quesito (ou tive sorte de não passar fome). Ah, também fomos orientados a levar um pouco de dinheiro para passar as primeiras semanas antes do primeiro pagamento (que era semanal).

Embarquei com o último grupo saindo do Brasil. É legal pra já ir conhecendo as pessoas e pra não se sentir muito perdido. Na época não tinha vôo direto para Orlando e ficamos esperando uma conexão longuíssima em Miami, mas pelo menos estávamos em grupo.

Na chegada tem uma pessoa da Disney esperando por nós, para fazer o traslado até o Vista Way, um dos condomínios da Disney. É o mais antigo e é lá que é feito o check in e o exame médico. Só no check in a gente descobre onde vai morar e com quem. De lá, quem não vai morar no Vista pega outro ônibus para os respectivos condomínios.

Eu morei no Chatham Square, que na época era bem novinho, e praticamente só tinha sul-americanos (na esmagadora maioria, brasileiros), em um apartamento de 3 quartos duplos. O chato é não poder escolher seus roommates, o que pode gerar atrito (como o que a gente acabou tendo com as argentinas malditas que foram alocadas conosco). Ou você pode conhecer gente incrível, principalmente as suas vizinhas de prédio, que são quem você acaba vendo mais.

Na primeira semana tem bastante burocracia. Tivemos reuniões para explicar como funcionava a vida nos condomínios, pra tirar o seguro social (um tipo de CPF) e pra abrir conta no banco, além de assinarmos muitos papéis, que obviamente ninguém leu, mas que temos certeza que eram contratos para vender nossas almas ao rato!

Depois de toda essa burocracia, ainda tem os treinamentos. Na minha época, era pelo menos 1 dia inteiro de Traditions, uma palestra sobre tudo de Disney e de parques, uma imersão na cultura da empresa. No fim desse dia finalmente descobrimos em que parques trabalharíamos.

Logo que cheguei, minha amiga disse: “não vai no supermercado que gasta muito tempo. Vai se arrumar pra gente sair!!” E foi o que fui fazer. Busquei minha roupa de cama e de banho e fui me arrumar pra sair. Como era fim do dia, estava com fome. Passei pra conhecer a casa de outro amigo nosso e aproveitei pra filar a bóia, haha! No dia seguinte acabei fazendo o mesmo, pois cara de pau com os amigos é aqui mesmo XD Mas eventualmente acabei indo pro super mercado e descobrindo um mundo de congelados que facilitou a minha vida. Com um monte de xóvens juntos, os congelados eram nossa salvação. Lá existem refeições completas congeladas, que não eram uma maravilha, mas davam pro gasto. E eram super baratas. Eu fazia minhas compras toda semana, já sabia exatamente onde ir e o que pegar e conseguia fazer tudo entre a passagem de um ônibus e outro (ou senão tinha que esperar muito tempo pra voltar pra casa).

O valor do aluguel é descontado direto do holerith, assim como o imposto. Não sei como fazem hoje em dia, mas na época a gente tinha que entrar no sistema para solicitar a isenção desse imposto. Ou então tinha que esperar o ano seguinte pra receber o ressarcimento desse imposto no Brasil.

O pagamento era feito por pay check, que dava pra descontar em vários lugares, inclusive no banco, direto na sua conta. O problema é que o meu cartão nunca chegou, então eu acabei ficando com o dinheiro todo em mãos. Mas tinha armário trancado em casa, tipo de hostel, então era bem seguro. Eu trocava o meu no supermercado toda semana, era bem tranquilo.

Eu trabalhava no Epcot, o parque da bola. Meu primeiro dia de treinamento foi andar pelo parque inteiro, conhecendo cada canto e cada história. Teve também umas dinâmicas e já pegamos nossos uniformes. Foi quando descobrimos finalmente em quais brinquedos trabalharíamos. Pegamos nossa escala e a partir de então, shit got real.

Eu era attractions host no pavilhão The Land. Eu tinha que apresentar as atrações, dar as instruções de segurança e apertar botão, basicamente. Tinha algumas falas pra decorar, mas depois de um tempo eu já falava sem nem pensar no que estava falando, de tão automático que virou. também ficava cumprimentando quem entrava no pavilhão e dando informações sobre o parque. Ou os parques, porque sempre tinha alguma pessoa meio perdida.

Não vou mentir dizendo que era tudo flores, porque não era, mas em retrospecto, era um trabalho bem sossegado. Era ruim sim passar o dia inteiro de pé, as vezes não tinha movimento e era bem chato, mas também era divertido quando era horário do coordenador legal, ou quando estava com as brasileiras, ou os novos universitários americanos, por exemplo.

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