Japão – Arubaito Sony Omigawa 2005

Nem tudo são flores quando a gente decide viajar pro exterior. Em 2004 comecei a estagiar no intercâmbio da USP e descobri que podia participar de um, mas eu não tinha dinheiro. Umas amigas já tinham ido pro Japão juntar dinheiro pra estudar na Austrália e eu decidi fazer o mesmo.

Tipo de viagem: Trabalho
Duração: 4 meses
Destino: Japão
Acomodação: apartamento providenciado pelo contratante
Custos: visto + passagem financiada (promissória e contrato) + seguro de viagem (fiz por conta)
Requisitos: ser maior de idade, ser nikkei até 3 geração ou conjuge (de papel passado) viajando acompanhado

No fim da década de 1980 e na década de 1990 muitos nikkeis foram pro Japão fazer dinheiro. Com nossa economia em frangalhos, ganhar em moeda estrangeira era um grande negócio. Muitos dos meus primos e alguns tios foram, passaram alguns anos trabalhando em chão de fábrica e juntaram um dinheiro para começar o próprio negócio aqui.

Como meus pais nunca tiveram muito interesse em cultura japonesa, ir pro Japão nunca tinha sido um interesse meu. Sei lá, achava que um dia iria pra lá, depois de conhecer o resto do mundo, pra passear, talvez conhecer as províncias dos meus antepassados, mas nunca, jamais, imaginei que iria trabalhar em chão de fábrica no Japão.

Na era do orkut, achei umas comunidades que tratavam de baito e descobri uma palestra informativa de uma empreiteira e arrastei meu melhor amigo pra assistir comigo. Quando chegou minha carta de aceitação pra estudar no Canadá, me inscrevi pra um baito fora de época e fui.

Na linha do tempo, recebi a carta no começo de agosto, me inscrevi no primeiro dia útil depois disso pra embarcar no baito e no dia 31 de agosto estava com o visto e a passagem no aeroporto embarcando pro outro lado do mundo. A empreiteira ajudou a tirar a documentação necessária, como o koseki (um tipo de certidão de nascimento, mas da família toda, do Japão) e providenciou os atestados financeiros para enviar ao consulado (e enviou pra mim). Praticamente eu entreguei só o passaporte e as certidões de nascimento (e óbito) e casamento dos meus pais e eles fizeram todo o resto dentro do prazo pra eu embarcar na data.

Pela empreiteira que eu fui, pude escolher a rota e pedi uma passagem de 1 ano, porque iria utiliza-la para ir pro intercâmbio no final do baito. Como tenho visto americano válido, fui via Nova York, e na volta pedi um stop de alguns meses. Tive que ajustar o voo do Japão para os EUA, mas a empreiteira fez isso por mim.

No embarque, uma pessoa tinha todos os meus documentos em mãos e me ajudou no check in (já que eu esqueci de pedir pra marcar a janela com antecedência), e me apresentou a outras pessoas que embarcavam pela mesma empreiteira, com o mesmo destino que eu.

A chegada no Japão

Nunca tinha voado tanto tempo na vida! O voo direto é bem puxado, mas na época existia um voo da JAL que só fazia escala em Nova York, então a viagem era umas 4h menos longa do que é hoje (a gente ficava menos tempo no chão), mas ainda assim cheguei morrendo em Narita. Pra piorar, era setembro e ainda estava quente pra caramba. Até hoje lembro de pisar pra fora do avião e pensar que tinha feito escala pro inferno

Reencontrei as pessoas que iam pra mesma fábrica que eu na imigração e eles me ajudaram, acabamos passando todos juntos, o oficial acho que ficou meio confuso com tanta gente e nem me fez muitas perguntas, HAHA!

Depois, pegamos nossas malas na esteira e passamos pela alfandega. Esse momento foi tenso, porque eu tinha VÁRIAS coisas que não podiam entrar no país, como ARROZ, SALAME E SOPA INSTANTANEA, hahaha! Mas, de novo, as pessoas que iam pra mesma fábrica que eu me salvaram e eu não tive que abrir a mala.

Ainda no Brasil a gente recebeu instruções sobre o traslado para o alojamento. Mas a saída foi tão surreal que eu quase me perdi! Logo depois da gente chegou um voo com o Johnny Deep, que estava divulgando “A fantástica fábrica de chocolate” e tinha uma multidão no saguão aguardando por ele! Mas as pessoas estavam todas super organizadas e sentadinhas a espera! Essa é uma cena que jamais esquecerei…

Quando todo mundo que tinha que desembarcar naquele voo desembarcou, fomos levados pros carros da empreiteira. Em 20 minutos já estávamos na cidade, Omigawa, e fomos deixados cada um na sua casa.

Moradia

É possível escolher se você quer ter um quarto só seu, ou se quer compartilhar e com quem. Eu escolhi a opção mais barata, que era compartilhar, e como meu contrato era de curta duração, fiquei com outras pessoas em situação similar (evita realocação de pessoas o tempo todo). Com isso, dei sorte de ficar num prédio novo, bem próximo da fábrica.

O “apato” era grande pros padrões japoneses. Tinha 2 quartos, um deles com beliche, uma sala/cozinha com um tamanho ok, 2 geladeiras (uma menor e outra de tamanho padrão) e um banheiro enorme. A privada tinha um canto separado, com porta, a pia ficava do lado de fora (com a máquina de lavar roupa) e o chuveiro e o ofuro ficavam em outra porta e tinha bastante espaço.

De utensilio a gente tinha uma tv, um aquecedor, além do split e uma panela elétrica pra fazer arroz. Eu levei prato, talheres, faca e umas panelas que eu já usava na república (que eram minhas), mas a gente acabou comprando mais coisas com o tempo (porque tinha uma Daiso gigante na cidade <3).

Junto com o apato, vinham as bicicletas. Mas a gente não podia usar pra ir pra fábrica, porque morava muito perto de qualquer forma, e porque não cabia no estacionamento da fábrica.

Também dei sorte com minhas roommates, cada uma de um canto, todas mais ou menos com a mesma idade. As vezes rolava umas briguinhas por bagunça, por barulho, mas tudo contornável. Lá pro final, a menina que dividia o quarto comigo passava mais tempo na casa do novo namorado do que com a gente, então pra dormir era ótimo, o quarto era só meu!

A gente também tinha futon, cobertor e travesseiro pra cada uma e cada quarto tinha um armário de 2 portas de correr. No meu quarto a gente dormia no tatame, então eu deixava uma mala no chão do meu lado do quarto e a outra guardada, e as roupas na minha parte do armário.

Trabalho na fábrica

Chegamos num domingo a tarde, tivemos um dia de “folga” e no outro dia fomos apresentados na fábrica. Assinamos uns papéis pra abrir conta no banco local, pegamos os sapatos e botas (dentro da fábrica só podia andar com o sapato deles) e os uniformes e explicaram como que funcionava, como batia ponto, o valor das horas, etc. Fomos apresentados a linha (tinha uma igual a nossa rodando) e vimos onde cada um ia ficar.

O foda é que a gente ainda tava bem virado do fuso, eu acordava super cedo, nem minha mãe acreditava, mas também sentia sono no fim da tarde e não conseguia nem ficar acordada! Fora o calor, que eu nunca imaginei que ia sentir por lá! A primeira semana foi meio caótica por causa disso, eu nem lembro direito de como eu sobrevivi. Mas lembro que no dia seguinte a gente já tava rodando, e poucos dias depois já tava fazendo hora extra. Esse baito era fora de época porque era uma linha que tinha sido transferida pra China, mas como a qualidade tinha caído muito, trouxeram de volta pro Japão e estava atrasada, então tínhamos que refazer todo um trabalho e ainda dar conta do prazo, por isso, assim que possível, começamos a fazer hora extra.

O mês fechava sempre no dia 15 e o recebimento era no dia 30. Então no primeiro mês não recebemos muito, mas foi o suficiente pra causar estragos. Resolvemos sair pro bar nesse dia e a galera se sentiu tão ryca que várias pessoas passaram mal na linha no dia seguinte. Levamos uma bela comida de rabo, fomos dispensados no horário normal e nunca mais repetimos o feito.

A linha não era de esteira, e sim de mesas fixas, cada um realizava o seu trabalho e passava pra frente. Como a produção era de uma peça que estava com prazo atrasado, a minha linha só fazia a mesma peça o dia todo. Cada um tinha um serviço bem específico, desde a limpeza dos componentes, passando pela montagem, até a revisão de cada funcionalidade. E isso porque nem era um equipamento inteiro, era só uma parte dele!

A minha linha era muito rápida. Por causa da minha posição, quem fazia a contagem das peças era eu, então eu conseguia calcular a velocidade e não precisava necessariamente acompanhar o ritmo das pessoas que estavam antes de mim. Mas eu sei que a gente conseguia bater a meta das horas extras em muito menos tempo. Com o tempo você (e o resto da linha) percebe que existe um ritmo calculado pela chefia, que não condiz com o ritmo da linha de verdade, mas que não compensa fazer as coisas correndo, porque assim não dá pra ganhar mais (e o objetivo de trabalhar em fábrica é ganhar dinheiro).

A nossa linha também era a mais jovem, muita gente que estava no Japão pela primeira vez, então acho que isso ajudava a gente ser a melhor linha da fábrica. Por isso fomos uma das linhas que passaram para a noite, depois de 1 mês e meio. Pode parecer estranho, mas trabalhar a noite era melhor por muitos fatores. O financeiro era o maior deles, pois havia o adicional noturno, mas até pra dormir era melhor, principalmente quando começou o outono e a fazer frio. Como dormíamos durante o dia, dormíamos na hora mais quente do dia, e a noite estávamos protegidos do frio dentro da fábrica. Também tinha a praticidade de estar vivendo no mesmo fuso do Brasil, ou seja, dava pra ligar pra casa se precisasse nos intervalos. E na fábrica, a gente tinha muito menos gente circulando, menos fofoca, menos gente no banheiro, no refeitório e não tinha chefes japas, que geralmente reclamavam que a gente conversava demais.

Sobre trabalhar o dia todo de pé, sim, doía pra caralho, meu pé ficou em frangalhos rapidinho, e eu passei a tomar relaxante muscular pra dor nas costas dia sim, dia não. Também usava uma cinta de suporte pras costas, que ajudava um pouquinho. Mas a gente não passava 12h ininterruptas de pé, claro. A cada 2h tínhamos um intervalo de 15 minutos e também podíamos pedir pra sair se precisasse durante o expediente. O almoço durava 45 minutos e tinha microondas pra aquecer marmita, além de um refeitório aberto mesmo de noite, pra quem não quisesse cozinhar em casa. Não era caro, mas também não era barato.

No final eu trabalhei 4 meses, quase sempre 12h por dia, de domingo a domingo. Eu fui pra lá pra isso, então isso não era problema pra mim. Era cansativo sim, mas se eu estava trabalhando, não tinha tempo pra gastar dinheiro, então pra mim era bom. Também trabalhei a maior parte do tempo de noite e o único problema foi mudar de fuso 2x, já que quando chegamos tivemos que nos adaptar ao dia do Japão e depois de 5 semanas tivemos que virar o dia e trocar pela noite, o que foi bem sofrido. Na primeira semana a gente nem conseguiu fazer horas extras porque estávamos muito cansados (eu chegava em casa quase 6h e ia direto dormir, sem banho, sem jantar, de tão cansada!), mas depois adaptamos a rotina e dava tempo de ir no supermercado, no correio, na lan house…

A rotina de peão de fábrica – ou a vida no Japão

Adaptar-se a uma nova realidade e a um novo país, a uma nova cidade, é sempre um desafio e leva um tempo. A vantagem de ir para cidades pequenas é que a adaptação é mais rápida, pelo menos no que diz respeito aos lugares que você vai passar a frequentar, e o tempo que você leva se deslocando. Rapidinho descobrimos onde comprar o que precisávamos, os restaurantes mais em conta, como ir pra cidade vizinha, etc.

Eu não fui a única que levou um monte de comida pra lá, então na minha casa, por um mês, a gente praticamente só comprava complementos pra incrementar nossas marmitas. Revezávamos na cozinha e nunca deu treta.

Mas é verdade que a gente fez trapalhada no supermercado fazendo compras! Uma vez quisemos dar umas de espertonas e, ao invés de levar nuggets, levamos um bolinho de legumes… Também comprei espetinho de ovo de codorna empanado achando que era bolinha de queijo e cheguei uma vez sem saber comprar açúcar (não tinha ideia da cara do saco de açúcar lá, muito menos sei ler japonês!). Além do fatídico pedaço de peixe que até hoje não sabemos o que era (quando colocamos no forno saiu um cheiro tão fedido que jogamos fora)!

A nossa cidade era tão minúscula que não tinha lan house. E o meu desespero quando descobri isso? Logo alguém contou que tinha uma grandona na cidade vizinha, mas que só dava pra chegar lá de bike. 40 minutos pedalando!!! A cada 15 dias a gente ia lá, pra receber notícias dos amigos e checar e-mails. Na volta a gente sempre parava no Wendy’s, hehe… Já no fim do programa a empreiteira colocou um ônibus pra ir e voltar de lá (e vários outros pontos), o que ajudou muito.

Na cidade ainda tinha um shopping pequeno, onde tinha a Daiso e um Mc Donald’s (além de outras coisas menores), e um super mercado. Tinha outro supermercado em outra área da cidade, do lado de uma drogaria enorme. Sempre que eu entrava na Daiso, largava muito dinheiro! Já no supermercado eu comprava o básico e nem ficava muito tempo. Eu tinha um budget restrito e me limitava àquilo só, tudo em nome da economia!

Bem atrás de casa tinha um Shimamura enorme, onde a gente vivia passeando. O Shimamura é uma rede de fast fashion, no estilo Pernambucanas: super barato e com tudo pra casa também. Como em todo lugar no Japão, tinha muita coisa licenciada desde Sanrio, a Peanuts, a Disney <3

Como morávamos em 4, dava pra juntar roupa suficiente pra por na máquina de lavar toda semana, mas a gente lavava quando tinha energias pra isso. Levamos até sabão em pó do Brasil, então era mesmo só pôr na máquina, esperar bater e estender.

Ah, é, estender roupa no varal era um drama. Quando chegamos estava muito quente, mas também muito úmido. Depois de esperar 2 dias pras roupas secarem, a gente arranjou um barbante e puxou de onde era possível pra estender as roupas dentro de casa, com o ar condicionado ligado. Na casa não tinha ferro de passar, então foram 4 meses amassados, haha!

A limpeza da casa era feita quando ficava muito suja mesmo. A gente trabalhava demais pra se importar ou ter forças. No começo era um problema, mas depois a gente viu que não era culpa de ninguém, e sim das circunstancias.

Momentos de lazer

Eu fui pro baito focada em fazer dinheiro, e eu tinha um tempo determinado pra tal. Fiz bem poucas coisas, quase não fiz compras, economizava em tudo.

Ainda assim, cnheci um pouco de Narita, Tokyo e a Disney, que era o único passeio que eu queria fazer quando saí do Brasil.

Narita fica há 40 minutos de trem de Omigawa, e tem um templo bem grande. Fomos com uma menina que já tinha morado em Omigawa antes e sabia o caminho. Passamos metade de um dia lá, é bem interessante.

Tokyo eu fui porque precisava entregar uns documentos numa agência pra tirar o visto pro Canadá e aproveitei pra encontrar um conhecido da época que fazia intercâmbio em Waseda. Aquele primeiro contato com Tokyo foi chocante, fomos pra Harajuku e de lá até Shinjuku e Akiba. Foi muito impressionante “encontrar” o Meiji jingu no meio daquele caos! Mas foi incrível descobrir a rede de trens da cidade, ver como tudo é super organizado, como as coisas funcionam mesmo numa cidade tão movimentada!

Sobre Disney eu quero falar em um post a parte, porque, né, home <3

Morar no Japão

Hoje em dia pode parecer tudo bem, mas na época eu simplesmente odiei morar no Japão. A sociedade é muito machista e a vida na fábrica não é fácil. O trabalho não exige nenhum esforço intelectual e as pessoas se apequenam naquele ciclo. Existe muita intriga dentro de fábrica, e não importa o quanto fuja, uma hora isso te afeta.

Fora que estar do outro lado do mundo pesa pra caramba. Pesa estar longe, pesa o fuso, pesa o choque cultural.

Definitivamente não é uma vida que eu escolheria levar. Mas já dizia o grande filósofo e poeta contemporâneo Justin Bieber, never say never.

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