Quebec – Crub/Crepuq Winter term 2006

Depois do inferno de trabalhar enlouquecidamente no Japão, veio a recompensa: fui estudar e morar no Canadá <3. Desde que eu voltei do primeiro intercâmbio, já queria voltar pro Canadá.

Tipo de viagem: intercâmbio da faculdade (créditos extras)
Duração: 4 meses
Destino: Lennoxville, Quebec – Canadá
Acomodação: dormitório da faculdade
Custos: Transporte + acomodação + alimentação + material
Requisitos: indicação da faculdade do Brasil, proficiência em inglês

Eu descobri esse intercâmbio porque eu trabalhava no setor de mobilidade estudantil da USP na época – por lá o processo é conhecido como USP-Quebec. É um convênio entre um conjunto de instituições brasileiras e um conjunto de instituições do Quebec para intercâmbio dos seus alunos. Os alunos interessados tem que se inscrever pela sua faculdade de origem, ou seja, a faculdade daqui escolhe qual aluno vai ter a oportunidade de concorrer com outros alunos do Brasil e do mundo a uma vaga.

Processo seletivo e inscrição

Na minha época, a USP abria a inscrição para a universidade toda (mais ou menos em março) e selecionava os alunos baseada em uma prova aplicada no próprio campus. Não é uma prova oficial do Canadá, é uma avaliação puramente uspiana (para cada convênio existe um professor encarregado e era ele que corrigia essas provas). A partir de então, de acordo com as notas, a USP informa quais os alunos passaram para a próxima fase. Então, cada um é responsável por providenciar sua documentação: histórico traduzido (juramentado), plano de estudos, formulários preenchidos. A USP então coletava todas as inscrições, enviava uma carta de recomendação junto com o pacote para o Canadá.

O aluno tinha a oportunidade de escolher até 2 universidades de mesma língua, como primeira e segunda opções. Porém, a segunda opção só é encaminhada caso a primeira não aceite o aluno.

No Quebec existem 3 universidades de língua inglesa: Concordia e McGill (uma das melhores universidades do mundo) em Montreal, e a Bishop’s, em Lennoxville. O resto é tudo em francês, tanto em Montreal e em Quebec, quanto em várias outras cidades menores.

Aprovação

A carta de aprovação vinha lá por fim de maio, diretamente ao aluno. O papel da USP era transformar a matricula “normal” para de intercâmbio (não é trancamento) e dá suporte acadêmico, mas o aluno que tem que, a partir dai, correr atrás de visto, transporte e acomodação.

No meu caso, eu me inscrevi primeiro para a Mc Gill, mesmo sabendo que teria mais sorte se me inscrevesse direto para a Bishop’s. Mas como comentei, a Mc Gill é uma das melhores faculdades do mundo e eu queria ao menos tentar. Com isso, minha aprovação demorou muito e veio só em começo de Agosto. Outra menina que conheci depois também passou pelo mesmo processo e conseguiu chegar em meados de Setembro. Como eu não tinha dinheiro, entrei em contato com a faculdade e pedi para mudar meu intercâmbio só para a partir de Janeiro do ano seguinte e foi bem tranquilo.

Visto

Para estudar menos de 6 meses no Canadá não é necessário tirar permissão de estudos. A permissão serve para também conseguir trabalhar meio período caso o aluno deseje, mas não era o meu caso. Ainda assim, na inscrição para o visto apresentei a minha aceitação na universidade. Fiz tudo do Japão, direto na embaixada em Tokyo. Me chamaram para a entrevista e acho que só queriam ver a minha cara, não me fizeram nenhuma pergunta estranha nem específica e me liberaram. Ao menos saí de lá com o visto no passaporte em mãos! Como era um visto simples, não demorou mais do que 1 mês pra sair.

Chegada, acomodação e alimentação

A Bishop’s tem um corpo discente estrangeiro relativamente grande. É uma universidade bem pequena, de menos de 3 mil alunos, em uma cidade menor ainda, então todo mundo se conhece e tenta fazer o outro se sentir bem vindo. Eles organizam transporte de Montreal para Lennoxville e explicam tudo no dia do check in na faculdade. A inscrição para a acomodação no campus é feita antes da chegada, e você pode pedir para dividir o quarto com alguém em específico, se já conhecer. Foi o meu caso, pedi para morar com a minha amiga da faculdade que já estava lá deste Setembro.

Na Bishop’s existem alguns tipos diferentes de acomodação. O Norton e o Pollack são 2 edifícios mais antigos, interligados no segundo andar, criando o No-Po. São quartos de 1 ou 2 pessoas, com banheiros comunitários (a limpeza fica a cargo de uma faxineira) compartilhados com até 8 alunos (no meu caso acho que éramos em 5 ou 6 no máximo, que eu nunca encontrava), o mesmo esquema do Mackinnon, que era um prédio maior e um pouco mais novo. No Kuhner, Munster e Abbot os quartos são individuais, com banheiros compartilhados por 2 apartamentos. No Paterson os apartamentos são completos com sala e cozinha, e banheiros para cada 2 quartos. Outra diferença entre eles é que no No-Po e no Mackinon o barulho era mais tolerado, e nos outros era lei do silêncio (lei do silêncio mesmo, não podia ficar fazendo encontrinho nos quartos, barulho nos corredores, etc).

Eu dei sorte, fiquei no último andar do Norton, em um corredor afastado dos demais quartos (havia o meu, um outro individual e a porta do banheiro. A porta da escada separava esse canto do resto do corredor dos outros quartos), perto do banheiro. Era bem tranquilo, e ainda dava pra dar festinha no quarto sem muita encheção de saco.

O quarto tinha cama, escrivaninha com telefone e armário para cada uma de nós. Na época a gente tinha que pagar a Internet a parte, hoje o wi-fi é aberto no campus todo, incluso no aluguel.

Era possível ter tv no quarto, mas cada um tinha que levar a sua.

Somente no Paterson os alunos tinham cozinha, nos outros prédios não tinha uma que pudéssemos utilizar e por isso éramos obrigados a pagar por um plano de alimentação, que é um crédito no cartão da faculdade pra ser utilizado em todo ponto de alimentação. Tinha várias opções, e os planos davam direito a descontos. Na minha época tinha uma pizzaria, uma lanchonete e um restaurante. Comia na pizzaria sempre, era barato, e almoçava quase todo dia no restaurante. Tinha desde hamburguer até prato de arroz e carne, além de saladas. Tinha dia de carne na brasa, camarões e macarrão. Comi muito bem lá, não tenho do que reclamar!

Matrícula e aulas

Logo depois que cheguei teve o dia pra matrícula dos alunos novos. Na época era um dia, no ginásio, pra falar com o representante dos departamentos. O ruim é que os alunos antigos já tinham feito matrícula no mês anterior e algumas aulas já estavam esgotadas. Mas consegui quase todas que queria. Como intercambista tinha um mínimo de créditos que eu tinha que fazer, mas foi bem tranquilo.

Fui como aluna de Economia, e escolhi uma matéria na área, a Nature of Economies. Também fiz Business, Canadia Cultural Expression e Introductory Psychology II. A adaptação a ter aulas em inglês foi bem tranquila, e na Bishop’s as salas são pequenas, a maioria de no máximo 20 alunos. Aulas mais concorridas, como a de Psicologia, eram maiores, mas eram a exceção. Fiz trabalhos e provas sem muita dificuldade, e quando precisava falar com um professor, eles eram bem receptivos.

Com as aulas definidas, comprei o material na livraria da faculdade. Tinha a opção de comprar os livros todos novinhos ou então usados. Economizei fazendo isso e tirando xerox de um deles, hehe…

Minhas aulas eram de segunda a quinta, por uma coincidência. De segunda e quarta tinha aula das 9h as 14h mais ou menos, e nas terças e quintas tinha só a aula de psicologia a tarde. Eu nem saia pra tomar café da manhã, deixava algumas guloseimas no quarto pra isso, e nos finais de semana também acordava super tarde.

Vida de intercambista

Como disse, a Bishop’s tem uma comunidade estrangeira grande e forte. Além das atividades de integração no começo das aulas, para todos os alunos novos, também tinha várias atividades para os estrangeiros. Várias festinhas fora do campus e excursões, como tentativa de esquiar e visita a uma sugar shack (pagas a parte, mas com valores bem acessíveis).

A gente também fazia as festinhas entre amigos, com menos gente, com mais alcool. No Quebec a idade mínima para consumo de alcool é 18 anos e, tirando cerveja, tem que ir na tal Liquor Store comprar. E as lojas funcionam em horários bizarros, tem que checar no site deles pra ver quando fica aberta a da sua rua…

A gente também se aventurava até o shopping de Sherbrooke, que é do lado, ou outros passeios entre amigos. Como a cidade era muito segura, a gente sempre saia a noite pra tomar um Tim Horton’s no posto mais próximo.

Eu acho que dei muita sorte. Não fui para a faculdade que eu queria, mas fui para onde deveria ir. Morar em uma cidade menor tem a vantagem de você poder conhecer a comunidade melhor, de focar nos estudos e passar bastante tempo entre amigos. A gente sempre se reunia pra ver filmes e seriados, as festinhas eram sempre entre amigos, sempre tinha uma mesa com alguém conhecido pra fazer uma refeição. Fora que o sistema acadêmico deles é incrível, com uma instituição menor a atenção aos detalhes é impressionante, tudo funciona muito bem lá e não deixa a desejar a nenhuma faculdade grande de lugar nenhum!

Peguei frio sim por lá, mas comprei os acessórios necessários por um valor bem honesto e não passei necessidade nenhuma. Os quartos eram quentinhos, assim como as salas e até os pontos de ônibus! Estudei bastante, me diverti e fiz amigos pra vida. E me apaixonei ainda mais pelo Canadá!

Walt Disney World – International College Program 2003/2004

Eu sempre quis conhecer o mundo, mas me faltava verba. Então desde cedo entendi que tinha que arranjar maneiras alternativas de bancar os meus sonhos. Foi assim que, sem querer, me deparei com o programa de trabalho de férias na Disney quando eu ainda estava no colégio. Eu sabia que ia participar daquilo quando estivesse na faculdade, o quanto antes!

Mas ai quando entrei na faculdade meu pai estava doente e eu nem lembrei disso, não corri atrás e essa informação já estava se perdendo no meio das turbulências da vida quando uma amiga da minha sala me chamou pra ir com ela na agência de viagens perguntar como participar do programa.

Tipo de viagem: Trabalho remunerado durante as férias de fim de ano
Duração: 2 meses e meio
Destino: Estados Unidos
Acomodação: Residência na propriedade Disney
Custos: Seguro viagem + Passagem aérea + Visto
Requisitos: inglês intermediário, ter completado pelo menos o 1º ano da faculdade na data da viagem

Naquela época as informações não eram tão fáceis de ser encontradas assim, por isso fomos até a agência pra perguntar como participar. Fomos informadas que o período de seleção começaria lá por abril ou maio, que precisaríamos participar de palestras pra poder conseguir marcar entrevistas e ai então passar pelo processo de seleção.

Deixamos nossos nomes e na época fomos avisadas da palestra. A primeira palestra foi informativa, de como aconteceria a seleção e do que esperar do trabalho na Disney. Explicaram que no fim daquela palestra marcaríamos entrevista na agência, que seriam feitas pela própria, mas em inglês. Era pra levar currículo traduzido e se portar como uma entrevista como qualquer outra.

No dia marcado, eu e minha amiga fomos até a sede da empresa e encontramos várias pessoas esperando também. Algumas estavam bem tensas e todo mundo se perguntava como estavam sendo as entrevistas. Claro que um processo de entrevista nunca é a coisa mais fácil do mundo, mas foi um bate papo bem tranquilo, mais para avaliar se os candidatos sabiam mesmo falar inglês do que avaliar o perfil.

Depois dessa primeira seleção, os candidatos que passaram foram chamados para uma segunda palestra. essa palestra já era com o pessoal da Disney, que veio explicar melhor como seria o trabalho, a vida, o dia a dia durante o programa. A Disney oferece a vaga e também organiza a acomodação com o transporte na Florida. Existem vários postos de trabalho disponíveis, que você lista em ordem de preferência, e na seleção eles avaliam qual mais se encaixa com seu perfil. Sua posição exata você só sabe quando chega, mas já sai do Brasil sabendo qual a área de atuação (vendas, atrações, etc). Na minha época as opções eram: Personagem (mas eles que tinham que oferecer, não era uma posição aberta), Merchandise (vendas), Attractions (abrange desde os brinquedos até entradas dos parques e direção dos trens do estacionamento), Custodial (limpeza) e Food & Beverage. A acomodação é organizada de acordo com o parque que você vai trabalhar. São diversos condomínios, com academia e piscina, com apartamentos de diversas configurações (os valores variam de acordo com a quantidade de pessoas na sua casa) e o transporte pros parques e pro supermercado são oferecidos “sem custo” (inclusos no aluguel pago, claro).

No fim da segunda palestra foram marcadas as entrevistas com os recrutadores da Disney, que vem para o país para fazer isso exclusivamente. Nessa entrevista não tem mesmo como enrolar se não souber falar inglês. Essa sim é uma entrevista mais parecida com uma entrevista de emprego, embora seja feita em dupla. Perguntam sobre porque você quer participar do programa, suas experiências, pra avaliar qual o seu perfil. É ali que decidem qual posição você vai se encaixar. Apesar do peso de ser uma entrevista “real” os recrutadores são super simpáticos e tentam deixar todos bem a vontade.

Depois dessa entrevista é necessário esperar o processo acabar em todos os outros lugares do Brasil. Na minha época só tinha palestra em São Paulo e no Rio, mas eram muitas pessoas e eu lembro de só receber a resposta muitas semanas depois. Via telefone. Acho que hoje em dia é via sistema ou e-mail.

Mesmo assim, o dia que você passa na entrevista e recebe o resultado é inesquecível. Lembro que estava indo pra faculdade mais cedo, ainda no ônibus, quando o celular tocou e me deram a notícia. Quis gritar e comemorar, mas tive que esperar descer pra achar minha amiga e celebrarmos juntas o resultado (ela também tinha passado). Nessa ligação também informam qual a data de embarque e se você pode ir. Quando a gente quer algo, nada é obstáculo.

Os passos seguintes parecem que passam tão rápido, mas o tempo parece que não anda, por causa da ansiedade. Tivemos que pedir carta da faculdade provando que estávamos matriculadas e que ainda tínhamos outros semestres para concluir o curso, que era presencial e que por isso teríamos que retornar se quiséssemos nos formar. Parece uma maluquice, mas é uma formalidade pra provar que você não vai migrar ilegalmente. Também recebemos a carta de aprovação e a agência nos ajuda a aplicar para o visto de trabalho temporário. Na época eles conseguiram organizar alguns grupos para o consulado (que ainda era nos Jardins em SP) e no dia tinha uma quantidade absurda de pessoas naquele lugar (tinha um cara muito indignado de ter que fazer sua entrevista naquele dia, no meio daquela garotada ensandecida toda!). Mas foi um processo bem tranquilo, no dia peguei um oficial super simpático, mal me fez perguntas e já aprovou meu visto. Em meu favor estava o fato de ter todos os documentos direitinho – carta da faculdade, IR da minha mãe, carta da Disney – e o fato de já ter tido um visto anterior, além de outra viagem pro exterior. Mas já fiquei sabendo de gente com visto negado sem aparente razão.

Dali em diante foi esperar. A agência organizou o seguro e o aéreo, escolhi voltar uns dias depois do fim do programa e ai foi partir pro abraço.

Na mala, levei roupa social pra participar dos treinamentos, sapato, várias roupas casuais e algumas de balada e só, nada que não levaria numa viagem de férias, por exemplo. As roupas de cama e banho seriam oferecidas localmente. Teve quem levasse comida, tipo miojo, para os primeiros dias, mas eu me virei nesse quesito (ou tive sorte de não passar fome). Ah, também fomos orientados a levar um pouco de dinheiro para passar as primeiras semanas antes do primeiro pagamento (que era semanal).

Embarquei com o último grupo saindo do Brasil. É legal pra já ir conhecendo as pessoas e pra não se sentir muito perdido. Na época não tinha vôo direto para Orlando e ficamos esperando uma conexão longuíssima em Miami, mas pelo menos estávamos em grupo.

Na chegada tem uma pessoa da Disney esperando por nós, para fazer o traslado até o Vista Way, um dos condomínios da Disney. É o mais antigo e é lá que é feito o check in e o exame médico. Só no check in a gente descobre onde vai morar e com quem. De lá, quem não vai morar no Vista pega outro ônibus para os respectivos condomínios.

Eu morei no Chatham Square, que na época era bem novinho, e praticamente só tinha sul-americanos (na esmagadora maioria, brasileiros), em um apartamento de 3 quartos duplos. O chato é não poder escolher seus roommates, o que pode gerar atrito (como o que a gente acabou tendo com as argentinas malditas que foram alocadas conosco). Ou você pode conhecer gente incrível, principalmente as suas vizinhas de prédio, que são quem você acaba vendo mais.

Na primeira semana tem bastante burocracia. Tivemos reuniões para explicar como funcionava a vida nos condomínios, pra tirar o seguro social (um tipo de CPF) e pra abrir conta no banco, além de assinarmos muitos papéis, que obviamente ninguém leu, mas que temos certeza que eram contratos para vender nossas almas ao rato!

Depois de toda essa burocracia, ainda tem os treinamentos. Na minha época, era pelo menos 1 dia inteiro de Traditions, uma palestra sobre tudo de Disney e de parques, uma imersão na cultura da empresa. No fim desse dia finalmente descobrimos em que parques trabalharíamos.

Logo que cheguei, minha amiga disse: “não vai no supermercado que gasta muito tempo. Vai se arrumar pra gente sair!!” E foi o que fui fazer. Busquei minha roupa de cama e de banho e fui me arrumar pra sair. Como era fim do dia, estava com fome. Passei pra conhecer a casa de outro amigo nosso e aproveitei pra filar a bóia, haha! No dia seguinte acabei fazendo o mesmo, pois cara de pau com os amigos é aqui mesmo XD Mas eventualmente acabei indo pro super mercado e descobrindo um mundo de congelados que facilitou a minha vida. Com um monte de xóvens juntos, os congelados eram nossa salvação. Lá existem refeições completas congeladas, que não eram uma maravilha, mas davam pro gasto. E eram super baratas. Eu fazia minhas compras toda semana, já sabia exatamente onde ir e o que pegar e conseguia fazer tudo entre a passagem de um ônibus e outro (ou senão tinha que esperar muito tempo pra voltar pra casa).

O valor do aluguel é descontado direto do holerith, assim como o imposto. Não sei como fazem hoje em dia, mas na época a gente tinha que entrar no sistema para solicitar a isenção desse imposto. Ou então tinha que esperar o ano seguinte pra receber o ressarcimento desse imposto no Brasil.

O pagamento era feito por pay check, que dava pra descontar em vários lugares, inclusive no banco, direto na sua conta. O problema é que o meu cartão nunca chegou, então eu acabei ficando com o dinheiro todo em mãos. Mas tinha armário trancado em casa, tipo de hostel, então era bem seguro. Eu trocava o meu no supermercado toda semana, era bem tranquilo.

Eu trabalhava no Epcot, o parque da bola. Meu primeiro dia de treinamento foi andar pelo parque inteiro, conhecendo cada canto e cada história. Teve também umas dinâmicas e já pegamos nossos uniformes. Foi quando descobrimos finalmente em quais brinquedos trabalharíamos. Pegamos nossa escala e a partir de então, shit got real.

Eu era attractions host no pavilhão The Land. Eu tinha que apresentar as atrações, dar as instruções de segurança e apertar botão, basicamente. Tinha algumas falas pra decorar, mas depois de um tempo eu já falava sem nem pensar no que estava falando, de tão automático que virou. também ficava cumprimentando quem entrava no pavilhão e dando informações sobre o parque. Ou os parques, porque sempre tinha alguma pessoa meio perdida.

Não vou mentir dizendo que era tudo flores, porque não era, mas em retrospecto, era um trabalho bem sossegado. Era ruim sim passar o dia inteiro de pé, as vezes não tinha movimento e era bem chato, mas também era divertido quando era horário do coordenador legal, ou quando estava com as brasileiras, ou os novos universitários americanos, por exemplo.

Canadá – Lions Youth Exchange Program 1999

Começando pelo começo, gostaria de falar sobre a minha primeira viagem internacional.

No meu aniversário de 16 anos recebi a notícia de que havia sido escolhida para participar do intercâmbio do Lions Club. O Lions é tipo o Rotary, uma sociedade de classe. Para participar do intercâmbio de meio de ano deles não é necessário fazer parte do clube. No caso específico do distrito que me ofereceu essa oportunidade, eles tinham um convênio com o curso de inglês que eu fazia, que escolhia os alunos que eles consideravam mais capazes de representar o país para as comunidades anfitriãs pelo mundo. O único requisito mesmo era falar inglês nível intermediário, para conseguir se comunicar com os anfitriões e “se virar” durante a viagem.

Tipo de viagem: Intercâmbio cultural
Duração: 38 dias
Destino: Canadá
Acomodação: Casa de família
Custos: Taxa de inscrição simbólica (US$ 250 a época) + passagem aérea + seguro viagem + dinheiro para despesas pessoais e emergências (acomodação e alimentação são de graça)
Requisitos: inglês intermediário, ter entre 15 e 21 anos

Eu estava no meio do colegial e até então nunca nem tinha viajado de avião. Meus pais deixaram claro que não teriam dinheiro para pagar por um curso no exterior, mas que se eu conseguisse uma vaga nesse intercâmbio do Lions, eles me bancariam. A escolha dos alunos é feita inteiramente a critério da escola, não existe uma inscrição ou declaração de interesse; bastava estar matriculado que qualquer aluno tinha chances de ser indicado. Então embora eu quisesse muito participar desse programa, foi uma surpresa ter sido indicada no meio do curso (quando eu viajei faltava 1 ano para o fim do curso).

A preparação incluiu diversas palestras sobre tudo, desde como se apresentar às famílias antes da chegada, até como fazer as malas (o que levar, o que é apropriado vestir), que tipo de presentes levar e depoimentos de ex-intercambistas contando como tinha sido a experiência deles. O Lions Club responsável fornece documentos para solicitação de visto, mas é o intercambista que deve resolver a papelada por conta. Assim que passamos por uma entrevista de reconhecimento (já que o Lions não tem contato prévio com os estudantes), fornecemos um pequeno dossiê que é enviado para Lions Clubs do mundo inteiro para análise, de acordo com nossas preferências e perfis. Durante a preparação os resultados vão chegando e somos informados dos locais e das famílias que nos receberão. Embora eu quisesse muito ir para a Europa, eu fazia parte do grupo mais jovem, e para ir para a Europa precisava ser um pouco mais velho, então meu dossiê foi enviado para a América do Norte.

No começo eu não fazia muita questão entre Canadá e EUA, eu meio que achava que seria a mesma coisa, mas confesso que senti um pouco de alívio quando descobri que viajaria para o Canadá, mesmo que para uma cidade pequena. Durante a preparação, tivemos que escrever a mão um trabalho sobre o nosso destino e descobri que o Canadá era um lugar fascinante!

O programa é planejado para coincidir com as férias de verão do hemisfério norte, e mesmo pegando só uma parte do período, ainda era mais tempo do que as férias da maioria dos estudantes daqui. Quando fui informada das datas da minha viagem, tive que fazer um acordo com alguns professores para não perder provas, além de ter que estudar para não tirar nenhuma nota baixa pois não teria chance de fazer prova de recuperação.

Durante os quase 40 dias, o programa dá oportunidade para as pessoas conhecerem culturas diferentes, vivenciarem diferente hábitos e participar de um acampamento com outros intercambistas que estejam na mesma área.

No embarque, o responsável pelo Lions do distrito que estava nos apoiando estava no aeroporto para dar suporte no check in e também apresentar as famílias e ter certeza de que embarcaríamos juntos. Viajamos de Continental Airlines e meu vôo teve conexão em Nova York e Minneapolis antes de chegar a Winnipeg, na província de Manitoba, Canadá. Foi bom ter companhia, pois tivemos que esperar muitas horas nos aeroportos, além dos mais experientes ajudarem aqueles que nunca haviam estado num aeroporto antes (como eu)!

Naquela época não havia um acesso tão facilitado a internet e a comunicação ainda era feita primordialmente por telefone e fax. Foi assim que avisei minha família dos detalhes do meu desembarque, e junto com a responsável pelo distrito que nos recebeu, eles estavam lá me esperando quando cheguei. E como boa marinheira de primeira viagem, tive minha mala extraviada! Mas todo mundo me ajudou muito para resolver esse problema.

Eu lembro de muitas coisas desse dia. Quando descobrimos que não haveria mesmo chances da minha mala ser achada, fomos fazer compras de supermercado, para matar o tempo enquanto esperávamos uma outra intercambista que eles hospedariam, chegar da Noruega. Lembro que era um clube de compras enorme, com vários estandes de degustação, e que eu pude escolher até o café da manhã (em casa eu tinha sorte se escolhessem um sustagem de sabor menos ruim)! Depois fomos tomar um lanche em um restaurantezinho simpático e fui apresentada aos molhos super apimentados, que seriam um hábito durante a viagem toda (naquela época eu não era nada acostumada a pimenta). E então voltamos ao aeroporto para buscar a norueguesa no fim da tarde antes de finalmente irmos para “casa”.

Minha família anfitriã (que eu chamo de família canadense) mora em uma cidadezinha pequenininha a sudeste de Winnipeg. Naquela época, moravam a mãe, o pai e uma das filhas na casa que eles haviam comprado quando os outros 2 irmãos ainda viviam junto. A casa era bem espaçosa, com 4 quartos grandes e um porão inteiro construído como sala de jogos e televisão. O jardim era médio e dava para um comitério, então era um lugar muito calmo.

Quando chegamos em casa, pedimos uma pizza, que veio cortada em quadrados (o que hoje em dia se chama de formato petisco, mas que na época só me parecia uma forma muito estranha de cortar uma coisa redonda), para jantar, antes que cada um se recolhesse. Como ainda estava claro, resolvi assitir um pouco de tv antes de escurecer. Que demorou muito pra acontecer, porque era alto verão e nessa época do ano o sol se põe lá pelas 22h!

Essa foi realmente uma experiência de muitas descobertas para mim, mas que definiu a forma como eu encaro a vida e o meu jeito de viajar.

Como não era um intercâmbio de estudos, tinhamos bastante tempo livre. O intuito era conhecer a cultura local e tentar mostar um pouco da nossa, então quanto mais tempo passassemos conversando, melhor. E acabava também sendo uma prática, porque meu inglês naquela época não era fluente e eu tive que me acostumar a acordar pensando em inglês (acordei uma vez numa viagem de carro falando português sem nem perceber).

O legal é que na minha família, o pai trabalhava de home office, então quando acordavamos, ele preparava o café da manhã (quase brunch!) e conversava um pouco, nos levava aos lugares que precisassemos (correio, papelaria) e depois nos dava liberdade pra fazer o que quisessemos. Passamos muitas manhãs e tardes vendo tv ou fazendo colagens com fotos, conversando ou passeando com a nossa “irmã canadense”.

Aos finais de semana iamos até Winipeg para passear e fazer compras. Comprei muito cd e fita vhs dos Backstreet Boys naquela época!!! Foi a primeira vez que tive esse contato com tanto consumismo, e esse tipo de liberdade pra fazer as minhas escolhas. Quase enlouqueci!

No meio da viagem, tivemos nosso acampamento, que começou em uma cidade próxima, para apresentação das 7 intercambistas (eu, a norueguesa, 2 finlandesas, 1 dinamarquesa, 1 italiana e 1 canadense). Durante uma semana viajamos pela provincia conhecendo outras cidades e outros clubes Lions e falando um pouco sobre a nossa cultura, além de convivermos umas com as outras, levantando acampamento toda manhã e montando barraca todo dia (com supervisão de adultos responsáveis que nos acompanhavam e viajaram conosco dirigindo as vans).

Quem já participou de um intercâmbio sabe como é possível formar laços de amizade tão fortes em tão pouco tempo. Em 1 semana nós éramos melhores amigas rindo e fazendo algazarra juntas, sofrendo com o calor ou com a chuva e tirando todo o tipo de foto boba. Conhecemos toda a região, comemos refeições diversas, assistimos a um jogo de beisebol, fizemos um aniversário surpresa, nadamos em lagos, saimos correndo da chuva e choramos com a despedida. Porque tudo o que é bom, dura muito pouco…

Nossa família também nos levou para viajar. Fomos até um lago, onde uns amigos emprestaram uma cabana, e visitamos um casal de amigos em outro lago, onde andamos de barco e nos divertimos com as crianças menores. Também visitamos sítios históricos (onde eu descobri essa coisa de representação de época ao vivo) e depois do acampamento voltamos a nos encontrar com algumas pessoas em Winnipeg.

Pra mim foi uma experiência de imersão numa cultura completamente nova, ainda mais naquela época sem internet. Eu vivi como eles, comi como eles, e ainda me diverti. Ir no super mercado de lá por si já era uma novidade! Também tive a chance de conviver com gente de realidades tão diferentes da minha, de fazer tantas coisas diferentes, de ver gente vivendo diferente de como eu vivia.

A experiência foi mesmo bem intensa, e considero a família que me hospedou, minha família. O povo canadense é muito simpático, muito prestativo, mas sem ser foçado. Eles fazem o que fazem pelo prazer de fazer, não porque a sociedade espera isso deles ou porque eles esperam ser reconhecidos. E eles não se levam muito a sério, levam a vida super leve.

Como eu vim de uma cidade onde as pessoas não saem do lugar comum, pra mim essa viagem foi uma janela aberta pro que o mundo tem pra oferecer, mostrando como é fascinante etsra num mundo com tanta diversidade e como é interessante conhecer realidades tão diferentes da sua. Foi a partir dessa viagem que eu soube que eu não queria sair preenchendo uma lista de pontos turisticos visitados, que eu queria conhecer cada canto do mundo da maneira que eles devem ser conhecidos, a fundo, com atenção.