Canadá – Lions Youth Exchange Program 1999

Começando pelo começo, gostaria de falar sobre a minha primeira viagem internacional.

No meu aniversário de 16 anos recebi a notícia de que havia sido escolhida para participar do intercâmbio do Lions Club. O Lions é tipo o Rotary, uma sociedade de classe. Para participar do intercâmbio de meio de ano deles não é necessário fazer parte do clube. No caso específico do distrito que me ofereceu essa oportunidade, eles tinham um convênio com o curso de inglês que eu fazia, que escolhia os alunos que eles consideravam mais capazes de representar o país para as comunidades anfitriãs pelo mundo. O único requisito mesmo era falar inglês nível intermediário, para conseguir se comunicar com os anfitriões e “se virar” durante a viagem.

Tipo de viagem: Intercâmbio cultural
Duração: 38 dias
Destino: Canadá
Acomodação: Casa de família
Custos: Taxa de inscrição simbólica (US$ 250 a época) + passagem aérea + seguro viagem + dinheiro para despesas pessoais e emergências (acomodação e alimentação são de graça)
Requisitos: inglês intermediário, ter entre 15 e 21 anos

Eu estava no meio do colegial e até então nunca nem tinha viajado de avião. Meus pais deixaram claro que não teriam dinheiro para pagar por um curso no exterior, mas que se eu conseguisse uma vaga nesse intercâmbio do Lions, eles me bancariam. A escolha dos alunos é feita inteiramente a critério da escola, não existe uma inscrição ou declaração de interesse; bastava estar matriculado que qualquer aluno tinha chances de ser indicado. Então embora eu quisesse muito participar desse programa, foi uma surpresa ter sido indicada no meio do curso (quando eu viajei faltava 1 ano para o fim do curso).

A preparação incluiu diversas palestras sobre tudo, desde como se apresentar às famílias antes da chegada, até como fazer as malas (o que levar, o que é apropriado vestir), que tipo de presentes levar e depoimentos de ex-intercambistas contando como tinha sido a experiência deles. O Lions Club responsável fornece documentos para solicitação de visto, mas é o intercambista que deve resolver a papelada por conta. Assim que passamos por uma entrevista de reconhecimento (já que o Lions não tem contato prévio com os estudantes), fornecemos um pequeno dossiê que é enviado para Lions Clubs do mundo inteiro para análise, de acordo com nossas preferências e perfis. Durante a preparação os resultados vão chegando e somos informados dos locais e das famílias que nos receberão. Embora eu quisesse muito ir para a Europa, eu fazia parte do grupo mais jovem, e para ir para a Europa precisava ser um pouco mais velho, então meu dossiê foi enviado para a América do Norte.

No começo eu não fazia muita questão entre Canadá e EUA, eu meio que achava que seria a mesma coisa, mas confesso que senti um pouco de alívio quando descobri que viajaria para o Canadá, mesmo que para uma cidade pequena. Durante a preparação, tivemos que escrever a mão um trabalho sobre o nosso destino e descobri que o Canadá era um lugar fascinante!

O programa é planejado para coincidir com as férias de verão do hemisfério norte, e mesmo pegando só uma parte do período, ainda era mais tempo do que as férias da maioria dos estudantes daqui. Quando fui informada das datas da minha viagem, tive que fazer um acordo com alguns professores para não perder provas, além de ter que estudar para não tirar nenhuma nota baixa pois não teria chance de fazer prova de recuperação.

Durante os quase 40 dias, o programa dá oportunidade para as pessoas conhecerem culturas diferentes, vivenciarem diferente hábitos e participar de um acampamento com outros intercambistas que estejam na mesma área.

No embarque, o responsável pelo Lions do distrito que estava nos apoiando estava no aeroporto para dar suporte no check in e também apresentar as famílias e ter certeza de que embarcaríamos juntos. Viajamos de Continental Airlines e meu vôo teve conexão em Nova York e Minneapolis antes de chegar a Winnipeg, na província de Manitoba, Canadá. Foi bom ter companhia, pois tivemos que esperar muitas horas nos aeroportos, além dos mais experientes ajudarem aqueles que nunca haviam estado num aeroporto antes (como eu)!

Naquela época não havia um acesso tão facilitado a internet e a comunicação ainda era feita primordialmente por telefone e fax. Foi assim que avisei minha família dos detalhes do meu desembarque, e junto com a responsável pelo distrito que nos recebeu, eles estavam lá me esperando quando cheguei. E como boa marinheira de primeira viagem, tive minha mala extraviada! Mas todo mundo me ajudou muito para resolver esse problema.

Eu lembro de muitas coisas desse dia. Quando descobrimos que não haveria mesmo chances da minha mala ser achada, fomos fazer compras de supermercado, para matar o tempo enquanto esperávamos uma outra intercambista que eles hospedariam, chegar da Noruega. Lembro que era um clube de compras enorme, com vários estandes de degustação, e que eu pude escolher até o café da manhã (em casa eu tinha sorte se escolhessem um sustagem de sabor menos ruim)! Depois fomos tomar um lanche em um restaurantezinho simpático e fui apresentada aos molhos super apimentados, que seriam um hábito durante a viagem toda (naquela época eu não era nada acostumada a pimenta). E então voltamos ao aeroporto para buscar a norueguesa no fim da tarde antes de finalmente irmos para “casa”.

Minha família anfitriã (que eu chamo de família canadense) mora em uma cidadezinha pequenininha a sudeste de Winnipeg. Naquela época, moravam a mãe, o pai e uma das filhas na casa que eles haviam comprado quando os outros 2 irmãos ainda viviam junto. A casa era bem espaçosa, com 4 quartos grandes e um porão inteiro construído como sala de jogos e televisão. O jardim era médio e dava para um comitério, então era um lugar muito calmo.

Quando chegamos em casa, pedimos uma pizza, que veio cortada em quadrados (o que hoje em dia se chama de formato petisco, mas que na época só me parecia uma forma muito estranha de cortar uma coisa redonda), para jantar, antes que cada um se recolhesse. Como ainda estava claro, resolvi assitir um pouco de tv antes de escurecer. Que demorou muito pra acontecer, porque era alto verão e nessa época do ano o sol se põe lá pelas 22h!

Essa foi realmente uma experiência de muitas descobertas para mim, mas que definiu a forma como eu encaro a vida e o meu jeito de viajar.

Como não era um intercâmbio de estudos, tinhamos bastante tempo livre. O intuito era conhecer a cultura local e tentar mostar um pouco da nossa, então quanto mais tempo passassemos conversando, melhor. E acabava também sendo uma prática, porque meu inglês naquela época não era fluente e eu tive que me acostumar a acordar pensando em inglês (acordei uma vez numa viagem de carro falando português sem nem perceber).

O legal é que na minha família, o pai trabalhava de home office, então quando acordavamos, ele preparava o café da manhã (quase brunch!) e conversava um pouco, nos levava aos lugares que precisassemos (correio, papelaria) e depois nos dava liberdade pra fazer o que quisessemos. Passamos muitas manhãs e tardes vendo tv ou fazendo colagens com fotos, conversando ou passeando com a nossa “irmã canadense”.

Aos finais de semana iamos até Winipeg para passear e fazer compras. Comprei muito cd e fita vhs dos Backstreet Boys naquela época!!! Foi a primeira vez que tive esse contato com tanto consumismo, e esse tipo de liberdade pra fazer as minhas escolhas. Quase enlouqueci!

No meio da viagem, tivemos nosso acampamento, que começou em uma cidade próxima, para apresentação das 7 intercambistas (eu, a norueguesa, 2 finlandesas, 1 dinamarquesa, 1 italiana e 1 canadense). Durante uma semana viajamos pela provincia conhecendo outras cidades e outros clubes Lions e falando um pouco sobre a nossa cultura, além de convivermos umas com as outras, levantando acampamento toda manhã e montando barraca todo dia (com supervisão de adultos responsáveis que nos acompanhavam e viajaram conosco dirigindo as vans).

Quem já participou de um intercâmbio sabe como é possível formar laços de amizade tão fortes em tão pouco tempo. Em 1 semana nós éramos melhores amigas rindo e fazendo algazarra juntas, sofrendo com o calor ou com a chuva e tirando todo o tipo de foto boba. Conhecemos toda a região, comemos refeições diversas, assistimos a um jogo de beisebol, fizemos um aniversário surpresa, nadamos em lagos, saimos correndo da chuva e choramos com a despedida. Porque tudo o que é bom, dura muito pouco…

Nossa família também nos levou para viajar. Fomos até um lago, onde uns amigos emprestaram uma cabana, e visitamos um casal de amigos em outro lago, onde andamos de barco e nos divertimos com as crianças menores. Também visitamos sítios históricos (onde eu descobri essa coisa de representação de época ao vivo) e depois do acampamento voltamos a nos encontrar com algumas pessoas em Winnipeg.

Pra mim foi uma experiência de imersão numa cultura completamente nova, ainda mais naquela época sem internet. Eu vivi como eles, comi como eles, e ainda me diverti. Ir no super mercado de lá por si já era uma novidade! Também tive a chance de conviver com gente de realidades tão diferentes da minha, de fazer tantas coisas diferentes, de ver gente vivendo diferente de como eu vivia.

A experiência foi mesmo bem intensa, e considero a família que me hospedou, minha família. O povo canadense é muito simpático, muito prestativo, mas sem ser foçado. Eles fazem o que fazem pelo prazer de fazer, não porque a sociedade espera isso deles ou porque eles esperam ser reconhecidos. E eles não se levam muito a sério, levam a vida super leve.

Como eu vim de uma cidade onde as pessoas não saem do lugar comum, pra mim essa viagem foi uma janela aberta pro que o mundo tem pra oferecer, mostrando como é fascinante etsra num mundo com tanta diversidade e como é interessante conhecer realidades tão diferentes da sua. Foi a partir dessa viagem que eu soube que eu não queria sair preenchendo uma lista de pontos turisticos visitados, que eu queria conhecer cada canto do mundo da maneira que eles devem ser conhecidos, a fundo, com atenção.

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