Japão – Arubaito Hitachi Toyokawa 2007

Já diria minha mãe que a gente não deve cuspir pra cima porque sempre pode cair na testa. Apesar de odiar a experiência de morar e trabalhar em linha de fábrica no Japão, um ano depois lá estava eu de novo…

Tipo de viagem: Trabalho
Duração: 3 meses
Destino: Japão
Acomodação: apartamento providenciado pelo contratante
Custos: visto + passagem financiada (promissória e contrato) + seguro de viagem (fiz por conta)
Requisitos: ser maior de idade, ser nikkei até 3 geração ou conjuge (de papel passado) viajando acompanhado

Como eu sai da outra vez com ódio no coração, não tirei o tal do re-entry, uma autorização para utilizar o visto que eu já tinha para voltar outra vez para o Japão. Tive que entrar com o processo todo de novo… Só que de um ano para o outro houve uma mudança no processo e o visto estava levando 6 semanas para ser liberado, e o solicitante ainda tinha que apresentar atestados de antecedentes criminais!

Resolvi voltar porque uma daquelas amigas que tinha ido para a Austrália estava de volta ao Brasil, sem fazer nada, e resolveu fazer um baito pra basicamente matar um tempo. Resolvi ir junto também porque consegui convencer meu melhor amigo a ir comigo. Coitado… Hahaha!

Sem saber, meu irmão foi pro primeiro arubaito dele na mesma região que eu estava indo. Ele embarcou umas semanas antes de mim, e eu cheguei lá um pouco antes do ano novo. De propósito, eu sabia que não poderia entrar na linha naquela época, mas queria passar o ano novo em Tokyo.

Fui na última festa da lendária Velfarre. Posso dizer que já fui na balada mais “topzera” do Japão, era muito foda mesmo <3

Pela primeira vez eu morei sozinha, num apato mini. Pra uma pessoa passar uma curta temporada, era bem de boa.

O trabalho era um pouco mais pesado do que o anterior, ainda era eletrônicos, mas eram peças bem maiores. Mas também tinha mais movimento, então a dor no corpo era igual. A coluna aguenta mais quando a gente pode dar uns passinhos pra cada lado durante o trabalho. Quando cheguei, tinha bastante hora extra, tanto que as vezes a gente ganhava jantar no expediente. Ah, e o expediente era diurno. O salário era menor do que na Sony também. A gente morava longe da fábrica, mas tinha transporte gratuito, porém não tínhamos bicicleta e todo o resto a gente tinha que fazer a pé. Meia hora andando até o centro…

No começo esse baito foi bem mais divertido, tinha bastante estudante, a galera parecia ser bem mais legal. Mas foi impressão. No fim, cada um é por si, e exatamente a imaturidade da pouca idade produz barreiras ridículas que impedem a turma se dar bem de verdade. Mas foi uma lição, aprendida a duras penas.

O legal foi poder reencontrar meu amigo japonês que conheci no intercâmbio, menos de um ano depois da gente se despedir no Canadá. Ele é muito maluquinho, mas foi bem legal ver um rosto familiar que dividiu comigo alguns dos melhores momentos da minha vida <3

Também encontrei meu irmão algumas vezes por lá. Eu morava em Toyohashi e ele em Toyokawa, as nossas fábricas eram uma do lado da outra, mas só dava pra sair nas folgas mesmo.

No fim fui uma das últimas a ir embora, já que não tinha aula na faculdade mesmo. Fui também para juntar dinheiro para viajar para os EUA, então abril foi uma boa época pra ir embora.

Tokyo Disneyland Resort 2005 & 2007

Das vezes que fui para o Japão, fui com uma única certeza: visitar os parques da Disney por lá. Os parques da Disney no Japão não são de propriedade da Disney, e sim de outra empresa local. A própria Disney não acreditava no sucesso que faria por lá. Foi tanto que esse caso foi usado na hora de modelar a Paris Disneyland (ex-Euro Disney).

Tipo de viagem: Passeio (morando no Japão)
Duração: 1 dia por parque
Destino: Japão
Custos: transporte + ingresso

Da primeira vez que fui ao Japão, em 2005, tudo o que sabia é que ficaria perto da Disney e que eu tinha que ir lá. Acho que falei tanto sobre isso que a própria empreiteira organizou uma excursão para a nossa linha. Pagamos o transporte e os ingressos, a linha foi liberada mais cedo no dia (a gente rodava a noite) e até a volta fui eu que “pedi” (depois do horário dos fogos, tive que lutar por isso porque queriam voltar antes!). Lá dentro a gente ficou por nossa própria conta.

Da segunda vez estava mais ao sul e comprei um pacotinho com passagens de trem bala e ingressos na própria estação.

Obviamente minhas expectativas eram as mais elevadas possíveis, e a Disney do Japão não me decepcionou!!!

O primeiro parque que conheci foi a Disneyland, o parque do castelo. Tem uma “mais street” coberta, e por causa da época, uma árvore de Natal enorme na frente. Tudo é muito bem feito, desde o merchandise até os detalhes arquitetônicos. O Japão é conhecido pela limpeza das ruas, mas na Disney eles se superam: o chão é tão limpo de que parece que dá pra comer no chão direto! O público também é mais educado, claro, mais quieto, mas mais fanático: andam vestidos de Disney dos pés a cabeça, ou então eles se “montam” como se fossem pra uma balada!

A parada do dia não me surpreendeu muito, mas era especial pro Natal, então não posso usar de padrão. A da noite é de luzinhas, como em Orlando, mas é infinitamente mais linda! Não sei explicar, parece que é feita mesmo com mais cuidado.

Infelizmente, por causa do (mau) tempo, não houve fogos…

Depois de pouco mais de um ano, voltei a Disney pra visitar a Disney Sea, com temática marinha. Tem um cruzeiro no meio, muita coisa sobre a Ariel, e a Torre do Terror. Cheguei mais tarde nesse parque e já não tinha mais fast pass e tive que esperar mais de DUZENTOS minutos na fila!!! Mas é meu brinquedo favorito, então vale sempre a pena. A coisa mais estranha mesmo é ver um musical da Ariel em japonês, mas esse parque também é impecável. No meio tem um lago onde acontecem os shows de fogos e água e é bem legal. Foi dessa vez que descobri o Ikispiari, uma área de compras e alimentação tipo o Disney Springs (ex-Downtown Disney). Tomei uma bebida na Godiva que nunca esquecerei, a melhor coisa que já experimentei na vida!

Acho que uma visita por lá é essencial pra quem vai pro Japão. É pertinho de Tokyo (30 minutos de Tokyo a Maihama, a estação mais próxima) e é perfeito!

Quebec – Crub/Crepuq Winter term 2006

Depois do inferno de trabalhar enlouquecidamente no Japão, veio a recompensa: fui estudar e morar no Canadá <3. Desde que eu voltei do primeiro intercâmbio, já queria voltar pro Canadá.

Tipo de viagem: intercâmbio da faculdade (créditos extras)
Duração: 4 meses
Destino: Lennoxville, Quebec – Canadá
Acomodação: dormitório da faculdade
Custos: Transporte + acomodação + alimentação + material
Requisitos: indicação da faculdade do Brasil, proficiência em inglês

Eu descobri esse intercâmbio porque eu trabalhava no setor de mobilidade estudantil da USP na época – por lá o processo é conhecido como USP-Quebec. É um convênio entre um conjunto de instituições brasileiras e um conjunto de instituições do Quebec para intercâmbio dos seus alunos. Os alunos interessados tem que se inscrever pela sua faculdade de origem, ou seja, a faculdade daqui escolhe qual aluno vai ter a oportunidade de concorrer com outros alunos do Brasil e do mundo a uma vaga.

Processo seletivo e inscrição

Na minha época, a USP abria a inscrição para a universidade toda (mais ou menos em março) e selecionava os alunos baseada em uma prova aplicada no próprio campus. Não é uma prova oficial do Canadá, é uma avaliação puramente uspiana (para cada convênio existe um professor encarregado e era ele que corrigia essas provas). A partir de então, de acordo com as notas, a USP informa quais os alunos passaram para a próxima fase. Então, cada um é responsável por providenciar sua documentação: histórico traduzido (juramentado), plano de estudos, formulários preenchidos. A USP então coletava todas as inscrições, enviava uma carta de recomendação junto com o pacote para o Canadá.

O aluno tinha a oportunidade de escolher até 2 universidades de mesma língua, como primeira e segunda opções. Porém, a segunda opção só é encaminhada caso a primeira não aceite o aluno.

No Quebec existem 3 universidades de língua inglesa: Concordia e McGill (uma das melhores universidades do mundo) em Montreal, e a Bishop’s, em Lennoxville. O resto é tudo em francês, tanto em Montreal e em Quebec, quanto em várias outras cidades menores.

Aprovação

A carta de aprovação vinha lá por fim de maio, diretamente ao aluno. O papel da USP era transformar a matricula “normal” para de intercâmbio (não é trancamento) e dá suporte acadêmico, mas o aluno que tem que, a partir dai, correr atrás de visto, transporte e acomodação.

No meu caso, eu me inscrevi primeiro para a Mc Gill, mesmo sabendo que teria mais sorte se me inscrevesse direto para a Bishop’s. Mas como comentei, a Mc Gill é uma das melhores faculdades do mundo e eu queria ao menos tentar. Com isso, minha aprovação demorou muito e veio só em começo de Agosto. Outra menina que conheci depois também passou pelo mesmo processo e conseguiu chegar em meados de Setembro. Como eu não tinha dinheiro, entrei em contato com a faculdade e pedi para mudar meu intercâmbio só para a partir de Janeiro do ano seguinte e foi bem tranquilo.

Visto

Para estudar menos de 6 meses no Canadá não é necessário tirar permissão de estudos. A permissão serve para também conseguir trabalhar meio período caso o aluno deseje, mas não era o meu caso. Ainda assim, na inscrição para o visto apresentei a minha aceitação na universidade. Fiz tudo do Japão, direto na embaixada em Tokyo. Me chamaram para a entrevista e acho que só queriam ver a minha cara, não me fizeram nenhuma pergunta estranha nem específica e me liberaram. Ao menos saí de lá com o visto no passaporte em mãos! Como era um visto simples, não demorou mais do que 1 mês pra sair.

Chegada, acomodação e alimentação

A Bishop’s tem um corpo discente estrangeiro relativamente grande. É uma universidade bem pequena, de menos de 3 mil alunos, em uma cidade menor ainda, então todo mundo se conhece e tenta fazer o outro se sentir bem vindo. Eles organizam transporte de Montreal para Lennoxville e explicam tudo no dia do check in na faculdade. A inscrição para a acomodação no campus é feita antes da chegada, e você pode pedir para dividir o quarto com alguém em específico, se já conhecer. Foi o meu caso, pedi para morar com a minha amiga da faculdade que já estava lá deste Setembro.

Na Bishop’s existem alguns tipos diferentes de acomodação. O Norton e o Pollack são 2 edifícios mais antigos, interligados no segundo andar, criando o No-Po. São quartos de 1 ou 2 pessoas, com banheiros comunitários (a limpeza fica a cargo de uma faxineira) compartilhados com até 8 alunos (no meu caso acho que éramos em 5 ou 6 no máximo, que eu nunca encontrava), o mesmo esquema do Mackinnon, que era um prédio maior e um pouco mais novo. No Kuhner, Munster e Abbot os quartos são individuais, com banheiros compartilhados por 2 apartamentos. No Paterson os apartamentos são completos com sala e cozinha, e banheiros para cada 2 quartos. Outra diferença entre eles é que no No-Po e no Mackinon o barulho era mais tolerado, e nos outros era lei do silêncio (lei do silêncio mesmo, não podia ficar fazendo encontrinho nos quartos, barulho nos corredores, etc).

Eu dei sorte, fiquei no último andar do Norton, em um corredor afastado dos demais quartos (havia o meu, um outro individual e a porta do banheiro. A porta da escada separava esse canto do resto do corredor dos outros quartos), perto do banheiro. Era bem tranquilo, e ainda dava pra dar festinha no quarto sem muita encheção de saco.

O quarto tinha cama, escrivaninha com telefone e armário para cada uma de nós. Na época a gente tinha que pagar a Internet a parte, hoje o wi-fi é aberto no campus todo, incluso no aluguel.

Era possível ter tv no quarto, mas cada um tinha que levar a sua.

Somente no Paterson os alunos tinham cozinha, nos outros prédios não tinha uma que pudéssemos utilizar e por isso éramos obrigados a pagar por um plano de alimentação, que é um crédito no cartão da faculdade pra ser utilizado em todo ponto de alimentação. Tinha várias opções, e os planos davam direito a descontos. Na minha época tinha uma pizzaria, uma lanchonete e um restaurante. Comia na pizzaria sempre, era barato, e almoçava quase todo dia no restaurante. Tinha desde hamburguer até prato de arroz e carne, além de saladas. Tinha dia de carne na brasa, camarões e macarrão. Comi muito bem lá, não tenho do que reclamar!

Matrícula e aulas

Logo depois que cheguei teve o dia pra matrícula dos alunos novos. Na época era um dia, no ginásio, pra falar com o representante dos departamentos. O ruim é que os alunos antigos já tinham feito matrícula no mês anterior e algumas aulas já estavam esgotadas. Mas consegui quase todas que queria. Como intercambista tinha um mínimo de créditos que eu tinha que fazer, mas foi bem tranquilo.

Fui como aluna de Economia, e escolhi uma matéria na área, a Nature of Economies. Também fiz Business, Canadia Cultural Expression e Introductory Psychology II. A adaptação a ter aulas em inglês foi bem tranquila, e na Bishop’s as salas são pequenas, a maioria de no máximo 20 alunos. Aulas mais concorridas, como a de Psicologia, eram maiores, mas eram a exceção. Fiz trabalhos e provas sem muita dificuldade, e quando precisava falar com um professor, eles eram bem receptivos.

Com as aulas definidas, comprei o material na livraria da faculdade. Tinha a opção de comprar os livros todos novinhos ou então usados. Economizei fazendo isso e tirando xerox de um deles, hehe…

Minhas aulas eram de segunda a quinta, por uma coincidência. De segunda e quarta tinha aula das 9h as 14h mais ou menos, e nas terças e quintas tinha só a aula de psicologia a tarde. Eu nem saia pra tomar café da manhã, deixava algumas guloseimas no quarto pra isso, e nos finais de semana também acordava super tarde.

Vida de intercambista

Como disse, a Bishop’s tem uma comunidade estrangeira grande e forte. Além das atividades de integração no começo das aulas, para todos os alunos novos, também tinha várias atividades para os estrangeiros. Várias festinhas fora do campus e excursões, como tentativa de esquiar e visita a uma sugar shack (pagas a parte, mas com valores bem acessíveis).

A gente também fazia as festinhas entre amigos, com menos gente, com mais alcool. No Quebec a idade mínima para consumo de alcool é 18 anos e, tirando cerveja, tem que ir na tal Liquor Store comprar. E as lojas funcionam em horários bizarros, tem que checar no site deles pra ver quando fica aberta a da sua rua…

A gente também se aventurava até o shopping de Sherbrooke, que é do lado, ou outros passeios entre amigos. Como a cidade era muito segura, a gente sempre saia a noite pra tomar um Tim Horton’s no posto mais próximo.

Eu acho que dei muita sorte. Não fui para a faculdade que eu queria, mas fui para onde deveria ir. Morar em uma cidade menor tem a vantagem de você poder conhecer a comunidade melhor, de focar nos estudos e passar bastante tempo entre amigos. A gente sempre se reunia pra ver filmes e seriados, as festinhas eram sempre entre amigos, sempre tinha uma mesa com alguém conhecido pra fazer uma refeição. Fora que o sistema acadêmico deles é incrível, com uma instituição menor a atenção aos detalhes é impressionante, tudo funciona muito bem lá e não deixa a desejar a nenhuma faculdade grande de lugar nenhum!

Peguei frio sim por lá, mas comprei os acessórios necessários por um valor bem honesto e não passei necessidade nenhuma. Os quartos eram quentinhos, assim como as salas e até os pontos de ônibus! Estudei bastante, me diverti e fiz amigos pra vida. E me apaixonei ainda mais pelo Canadá!

Japão – Arubaito Sony Omigawa 2005

Nem tudo são flores quando a gente decide viajar pro exterior. Em 2004 comecei a estagiar no intercâmbio da USP e descobri que podia participar de um, mas eu não tinha dinheiro. Umas amigas já tinham ido pro Japão juntar dinheiro pra estudar na Austrália e eu decidi fazer o mesmo.

Tipo de viagem: Trabalho
Duração: 4 meses
Destino: Japão
Acomodação: apartamento providenciado pelo contratante
Custos: visto + passagem financiada (promissória e contrato) + seguro de viagem (fiz por conta)
Requisitos: ser maior de idade, ser nikkei até 3 geração ou conjuge (de papel passado) viajando acompanhado

No fim da década de 1980 e na década de 1990 muitos nikkeis foram pro Japão fazer dinheiro. Com nossa economia em frangalhos, ganhar em moeda estrangeira era um grande negócio. Muitos dos meus primos e alguns tios foram, passaram alguns anos trabalhando em chão de fábrica e juntaram um dinheiro para começar o próprio negócio aqui.

Como meus pais nunca tiveram muito interesse em cultura japonesa, ir pro Japão nunca tinha sido um interesse meu. Sei lá, achava que um dia iria pra lá, depois de conhecer o resto do mundo, pra passear, talvez conhecer as províncias dos meus antepassados, mas nunca, jamais, imaginei que iria trabalhar em chão de fábrica no Japão.

Na era do orkut, achei umas comunidades que tratavam de baito e descobri uma palestra informativa de uma empreiteira e arrastei meu melhor amigo pra assistir comigo. Quando chegou minha carta de aceitação pra estudar no Canadá, me inscrevi pra um baito fora de época e fui.

Na linha do tempo, recebi a carta no começo de agosto, me inscrevi no primeiro dia útil depois disso pra embarcar no baito e no dia 31 de agosto estava com o visto e a passagem no aeroporto embarcando pro outro lado do mundo. A empreiteira ajudou a tirar a documentação necessária, como o koseki (um tipo de certidão de nascimento, mas da família toda, do Japão) e providenciou os atestados financeiros para enviar ao consulado (e enviou pra mim). Praticamente eu entreguei só o passaporte e as certidões de nascimento (e óbito) e casamento dos meus pais e eles fizeram todo o resto dentro do prazo pra eu embarcar na data.

Pela empreiteira que eu fui, pude escolher a rota e pedi uma passagem de 1 ano, porque iria utiliza-la para ir pro intercâmbio no final do baito. Como tenho visto americano válido, fui via Nova York, e na volta pedi um stop de alguns meses. Tive que ajustar o voo do Japão para os EUA, mas a empreiteira fez isso por mim.

No embarque, uma pessoa tinha todos os meus documentos em mãos e me ajudou no check in (já que eu esqueci de pedir pra marcar a janela com antecedência), e me apresentou a outras pessoas que embarcavam pela mesma empreiteira, com o mesmo destino que eu.

A chegada no Japão

Nunca tinha voado tanto tempo na vida! O voo direto é bem puxado, mas na época existia um voo da JAL que só fazia escala em Nova York, então a viagem era umas 4h menos longa do que é hoje (a gente ficava menos tempo no chão), mas ainda assim cheguei morrendo em Narita. Pra piorar, era setembro e ainda estava quente pra caramba. Até hoje lembro de pisar pra fora do avião e pensar que tinha feito escala pro inferno

Reencontrei as pessoas que iam pra mesma fábrica que eu na imigração e eles me ajudaram, acabamos passando todos juntos, o oficial acho que ficou meio confuso com tanta gente e nem me fez muitas perguntas, HAHA!

Depois, pegamos nossas malas na esteira e passamos pela alfandega. Esse momento foi tenso, porque eu tinha VÁRIAS coisas que não podiam entrar no país, como ARROZ, SALAME E SOPA INSTANTANEA, hahaha! Mas, de novo, as pessoas que iam pra mesma fábrica que eu me salvaram e eu não tive que abrir a mala.

Ainda no Brasil a gente recebeu instruções sobre o traslado para o alojamento. Mas a saída foi tão surreal que eu quase me perdi! Logo depois da gente chegou um voo com o Johnny Deep, que estava divulgando “A fantástica fábrica de chocolate” e tinha uma multidão no saguão aguardando por ele! Mas as pessoas estavam todas super organizadas e sentadinhas a espera! Essa é uma cena que jamais esquecerei…

Quando todo mundo que tinha que desembarcar naquele voo desembarcou, fomos levados pros carros da empreiteira. Em 20 minutos já estávamos na cidade, Omigawa, e fomos deixados cada um na sua casa.

Moradia

É possível escolher se você quer ter um quarto só seu, ou se quer compartilhar e com quem. Eu escolhi a opção mais barata, que era compartilhar, e como meu contrato era de curta duração, fiquei com outras pessoas em situação similar (evita realocação de pessoas o tempo todo). Com isso, dei sorte de ficar num prédio novo, bem próximo da fábrica.

O “apato” era grande pros padrões japoneses. Tinha 2 quartos, um deles com beliche, uma sala/cozinha com um tamanho ok, 2 geladeiras (uma menor e outra de tamanho padrão) e um banheiro enorme. A privada tinha um canto separado, com porta, a pia ficava do lado de fora (com a máquina de lavar roupa) e o chuveiro e o ofuro ficavam em outra porta e tinha bastante espaço.

De utensilio a gente tinha uma tv, um aquecedor, além do split e uma panela elétrica pra fazer arroz. Eu levei prato, talheres, faca e umas panelas que eu já usava na república (que eram minhas), mas a gente acabou comprando mais coisas com o tempo (porque tinha uma Daiso gigante na cidade <3).

Junto com o apato, vinham as bicicletas. Mas a gente não podia usar pra ir pra fábrica, porque morava muito perto de qualquer forma, e porque não cabia no estacionamento da fábrica.

Também dei sorte com minhas roommates, cada uma de um canto, todas mais ou menos com a mesma idade. As vezes rolava umas briguinhas por bagunça, por barulho, mas tudo contornável. Lá pro final, a menina que dividia o quarto comigo passava mais tempo na casa do novo namorado do que com a gente, então pra dormir era ótimo, o quarto era só meu!

A gente também tinha futon, cobertor e travesseiro pra cada uma e cada quarto tinha um armário de 2 portas de correr. No meu quarto a gente dormia no tatame, então eu deixava uma mala no chão do meu lado do quarto e a outra guardada, e as roupas na minha parte do armário.

Trabalho na fábrica

Chegamos num domingo a tarde, tivemos um dia de “folga” e no outro dia fomos apresentados na fábrica. Assinamos uns papéis pra abrir conta no banco local, pegamos os sapatos e botas (dentro da fábrica só podia andar com o sapato deles) e os uniformes e explicaram como que funcionava, como batia ponto, o valor das horas, etc. Fomos apresentados a linha (tinha uma igual a nossa rodando) e vimos onde cada um ia ficar.

O foda é que a gente ainda tava bem virado do fuso, eu acordava super cedo, nem minha mãe acreditava, mas também sentia sono no fim da tarde e não conseguia nem ficar acordada! Fora o calor, que eu nunca imaginei que ia sentir por lá! A primeira semana foi meio caótica por causa disso, eu nem lembro direito de como eu sobrevivi. Mas lembro que no dia seguinte a gente já tava rodando, e poucos dias depois já tava fazendo hora extra. Esse baito era fora de época porque era uma linha que tinha sido transferida pra China, mas como a qualidade tinha caído muito, trouxeram de volta pro Japão e estava atrasada, então tínhamos que refazer todo um trabalho e ainda dar conta do prazo, por isso, assim que possível, começamos a fazer hora extra.

O mês fechava sempre no dia 15 e o recebimento era no dia 30. Então no primeiro mês não recebemos muito, mas foi o suficiente pra causar estragos. Resolvemos sair pro bar nesse dia e a galera se sentiu tão ryca que várias pessoas passaram mal na linha no dia seguinte. Levamos uma bela comida de rabo, fomos dispensados no horário normal e nunca mais repetimos o feito.

A linha não era de esteira, e sim de mesas fixas, cada um realizava o seu trabalho e passava pra frente. Como a produção era de uma peça que estava com prazo atrasado, a minha linha só fazia a mesma peça o dia todo. Cada um tinha um serviço bem específico, desde a limpeza dos componentes, passando pela montagem, até a revisão de cada funcionalidade. E isso porque nem era um equipamento inteiro, era só uma parte dele!

A minha linha era muito rápida. Por causa da minha posição, quem fazia a contagem das peças era eu, então eu conseguia calcular a velocidade e não precisava necessariamente acompanhar o ritmo das pessoas que estavam antes de mim. Mas eu sei que a gente conseguia bater a meta das horas extras em muito menos tempo. Com o tempo você (e o resto da linha) percebe que existe um ritmo calculado pela chefia, que não condiz com o ritmo da linha de verdade, mas que não compensa fazer as coisas correndo, porque assim não dá pra ganhar mais (e o objetivo de trabalhar em fábrica é ganhar dinheiro).

A nossa linha também era a mais jovem, muita gente que estava no Japão pela primeira vez, então acho que isso ajudava a gente ser a melhor linha da fábrica. Por isso fomos uma das linhas que passaram para a noite, depois de 1 mês e meio. Pode parecer estranho, mas trabalhar a noite era melhor por muitos fatores. O financeiro era o maior deles, pois havia o adicional noturno, mas até pra dormir era melhor, principalmente quando começou o outono e a fazer frio. Como dormíamos durante o dia, dormíamos na hora mais quente do dia, e a noite estávamos protegidos do frio dentro da fábrica. Também tinha a praticidade de estar vivendo no mesmo fuso do Brasil, ou seja, dava pra ligar pra casa se precisasse nos intervalos. E na fábrica, a gente tinha muito menos gente circulando, menos fofoca, menos gente no banheiro, no refeitório e não tinha chefes japas, que geralmente reclamavam que a gente conversava demais.

Sobre trabalhar o dia todo de pé, sim, doía pra caralho, meu pé ficou em frangalhos rapidinho, e eu passei a tomar relaxante muscular pra dor nas costas dia sim, dia não. Também usava uma cinta de suporte pras costas, que ajudava um pouquinho. Mas a gente não passava 12h ininterruptas de pé, claro. A cada 2h tínhamos um intervalo de 15 minutos e também podíamos pedir pra sair se precisasse durante o expediente. O almoço durava 45 minutos e tinha microondas pra aquecer marmita, além de um refeitório aberto mesmo de noite, pra quem não quisesse cozinhar em casa. Não era caro, mas também não era barato.

No final eu trabalhei 4 meses, quase sempre 12h por dia, de domingo a domingo. Eu fui pra lá pra isso, então isso não era problema pra mim. Era cansativo sim, mas se eu estava trabalhando, não tinha tempo pra gastar dinheiro, então pra mim era bom. Também trabalhei a maior parte do tempo de noite e o único problema foi mudar de fuso 2x, já que quando chegamos tivemos que nos adaptar ao dia do Japão e depois de 5 semanas tivemos que virar o dia e trocar pela noite, o que foi bem sofrido. Na primeira semana a gente nem conseguiu fazer horas extras porque estávamos muito cansados (eu chegava em casa quase 6h e ia direto dormir, sem banho, sem jantar, de tão cansada!), mas depois adaptamos a rotina e dava tempo de ir no supermercado, no correio, na lan house…

A rotina de peão de fábrica – ou a vida no Japão

Adaptar-se a uma nova realidade e a um novo país, a uma nova cidade, é sempre um desafio e leva um tempo. A vantagem de ir para cidades pequenas é que a adaptação é mais rápida, pelo menos no que diz respeito aos lugares que você vai passar a frequentar, e o tempo que você leva se deslocando. Rapidinho descobrimos onde comprar o que precisávamos, os restaurantes mais em conta, como ir pra cidade vizinha, etc.

Eu não fui a única que levou um monte de comida pra lá, então na minha casa, por um mês, a gente praticamente só comprava complementos pra incrementar nossas marmitas. Revezávamos na cozinha e nunca deu treta.

Mas é verdade que a gente fez trapalhada no supermercado fazendo compras! Uma vez quisemos dar umas de espertonas e, ao invés de levar nuggets, levamos um bolinho de legumes… Também comprei espetinho de ovo de codorna empanado achando que era bolinha de queijo e cheguei uma vez sem saber comprar açúcar (não tinha ideia da cara do saco de açúcar lá, muito menos sei ler japonês!). Além do fatídico pedaço de peixe que até hoje não sabemos o que era (quando colocamos no forno saiu um cheiro tão fedido que jogamos fora)!

A nossa cidade era tão minúscula que não tinha lan house. E o meu desespero quando descobri isso? Logo alguém contou que tinha uma grandona na cidade vizinha, mas que só dava pra chegar lá de bike. 40 minutos pedalando!!! A cada 15 dias a gente ia lá, pra receber notícias dos amigos e checar e-mails. Na volta a gente sempre parava no Wendy’s, hehe… Já no fim do programa a empreiteira colocou um ônibus pra ir e voltar de lá (e vários outros pontos), o que ajudou muito.

Na cidade ainda tinha um shopping pequeno, onde tinha a Daiso e um Mc Donald’s (além de outras coisas menores), e um super mercado. Tinha outro supermercado em outra área da cidade, do lado de uma drogaria enorme. Sempre que eu entrava na Daiso, largava muito dinheiro! Já no supermercado eu comprava o básico e nem ficava muito tempo. Eu tinha um budget restrito e me limitava àquilo só, tudo em nome da economia!

Bem atrás de casa tinha um Shimamura enorme, onde a gente vivia passeando. O Shimamura é uma rede de fast fashion, no estilo Pernambucanas: super barato e com tudo pra casa também. Como em todo lugar no Japão, tinha muita coisa licenciada desde Sanrio, a Peanuts, a Disney <3

Como morávamos em 4, dava pra juntar roupa suficiente pra por na máquina de lavar toda semana, mas a gente lavava quando tinha energias pra isso. Levamos até sabão em pó do Brasil, então era mesmo só pôr na máquina, esperar bater e estender.

Ah, é, estender roupa no varal era um drama. Quando chegamos estava muito quente, mas também muito úmido. Depois de esperar 2 dias pras roupas secarem, a gente arranjou um barbante e puxou de onde era possível pra estender as roupas dentro de casa, com o ar condicionado ligado. Na casa não tinha ferro de passar, então foram 4 meses amassados, haha!

A limpeza da casa era feita quando ficava muito suja mesmo. A gente trabalhava demais pra se importar ou ter forças. No começo era um problema, mas depois a gente viu que não era culpa de ninguém, e sim das circunstancias.

Momentos de lazer

Eu fui pro baito focada em fazer dinheiro, e eu tinha um tempo determinado pra tal. Fiz bem poucas coisas, quase não fiz compras, economizava em tudo.

Ainda assim, cnheci um pouco de Narita, Tokyo e a Disney, que era o único passeio que eu queria fazer quando saí do Brasil.

Narita fica há 40 minutos de trem de Omigawa, e tem um templo bem grande. Fomos com uma menina que já tinha morado em Omigawa antes e sabia o caminho. Passamos metade de um dia lá, é bem interessante.

Tokyo eu fui porque precisava entregar uns documentos numa agência pra tirar o visto pro Canadá e aproveitei pra encontrar um conhecido da época que fazia intercâmbio em Waseda. Aquele primeiro contato com Tokyo foi chocante, fomos pra Harajuku e de lá até Shinjuku e Akiba. Foi muito impressionante “encontrar” o Meiji jingu no meio daquele caos! Mas foi incrível descobrir a rede de trens da cidade, ver como tudo é super organizado, como as coisas funcionam mesmo numa cidade tão movimentada!

Sobre Disney eu quero falar em um post a parte, porque, né, home <3

Morar no Japão

Hoje em dia pode parecer tudo bem, mas na época eu simplesmente odiei morar no Japão. A sociedade é muito machista e a vida na fábrica não é fácil. O trabalho não exige nenhum esforço intelectual e as pessoas se apequenam naquele ciclo. Existe muita intriga dentro de fábrica, e não importa o quanto fuja, uma hora isso te afeta.

Fora que estar do outro lado do mundo pesa pra caramba. Pesa estar longe, pesa o fuso, pesa o choque cultural.

Definitivamente não é uma vida que eu escolheria levar. Mas já dizia o grande filósofo e poeta contemporâneo Justin Bieber, never say never.

Walt Disney World – International College Program 2003/2004

Eu sempre quis conhecer o mundo, mas me faltava verba. Então desde cedo entendi que tinha que arranjar maneiras alternativas de bancar os meus sonhos. Foi assim que, sem querer, me deparei com o programa de trabalho de férias na Disney quando eu ainda estava no colégio. Eu sabia que ia participar daquilo quando estivesse na faculdade, o quanto antes!

Mas ai quando entrei na faculdade meu pai estava doente e eu nem lembrei disso, não corri atrás e essa informação já estava se perdendo no meio das turbulências da vida quando uma amiga da minha sala me chamou pra ir com ela na agência de viagens perguntar como participar do programa.

Tipo de viagem: Trabalho remunerado durante as férias de fim de ano
Duração: 2 meses e meio
Destino: Estados Unidos
Acomodação: Residência na propriedade Disney
Custos: Seguro viagem + Passagem aérea + Visto
Requisitos: inglês intermediário, ter completado pelo menos o 1º ano da faculdade na data da viagem

Naquela época as informações não eram tão fáceis de ser encontradas assim, por isso fomos até a agência pra perguntar como participar. Fomos informadas que o período de seleção começaria lá por abril ou maio, que precisaríamos participar de palestras pra poder conseguir marcar entrevistas e ai então passar pelo processo de seleção.

Deixamos nossos nomes e na época fomos avisadas da palestra. A primeira palestra foi informativa, de como aconteceria a seleção e do que esperar do trabalho na Disney. Explicaram que no fim daquela palestra marcaríamos entrevista na agência, que seriam feitas pela própria, mas em inglês. Era pra levar currículo traduzido e se portar como uma entrevista como qualquer outra.

No dia marcado, eu e minha amiga fomos até a sede da empresa e encontramos várias pessoas esperando também. Algumas estavam bem tensas e todo mundo se perguntava como estavam sendo as entrevistas. Claro que um processo de entrevista nunca é a coisa mais fácil do mundo, mas foi um bate papo bem tranquilo, mais para avaliar se os candidatos sabiam mesmo falar inglês do que avaliar o perfil.

Depois dessa primeira seleção, os candidatos que passaram foram chamados para uma segunda palestra. essa palestra já era com o pessoal da Disney, que veio explicar melhor como seria o trabalho, a vida, o dia a dia durante o programa. A Disney oferece a vaga e também organiza a acomodação com o transporte na Florida. Existem vários postos de trabalho disponíveis, que você lista em ordem de preferência, e na seleção eles avaliam qual mais se encaixa com seu perfil. Sua posição exata você só sabe quando chega, mas já sai do Brasil sabendo qual a área de atuação (vendas, atrações, etc). Na minha época as opções eram: Personagem (mas eles que tinham que oferecer, não era uma posição aberta), Merchandise (vendas), Attractions (abrange desde os brinquedos até entradas dos parques e direção dos trens do estacionamento), Custodial (limpeza) e Food & Beverage. A acomodação é organizada de acordo com o parque que você vai trabalhar. São diversos condomínios, com academia e piscina, com apartamentos de diversas configurações (os valores variam de acordo com a quantidade de pessoas na sua casa) e o transporte pros parques e pro supermercado são oferecidos “sem custo” (inclusos no aluguel pago, claro).

No fim da segunda palestra foram marcadas as entrevistas com os recrutadores da Disney, que vem para o país para fazer isso exclusivamente. Nessa entrevista não tem mesmo como enrolar se não souber falar inglês. Essa sim é uma entrevista mais parecida com uma entrevista de emprego, embora seja feita em dupla. Perguntam sobre porque você quer participar do programa, suas experiências, pra avaliar qual o seu perfil. É ali que decidem qual posição você vai se encaixar. Apesar do peso de ser uma entrevista “real” os recrutadores são super simpáticos e tentam deixar todos bem a vontade.

Depois dessa entrevista é necessário esperar o processo acabar em todos os outros lugares do Brasil. Na minha época só tinha palestra em São Paulo e no Rio, mas eram muitas pessoas e eu lembro de só receber a resposta muitas semanas depois. Via telefone. Acho que hoje em dia é via sistema ou e-mail.

Mesmo assim, o dia que você passa na entrevista e recebe o resultado é inesquecível. Lembro que estava indo pra faculdade mais cedo, ainda no ônibus, quando o celular tocou e me deram a notícia. Quis gritar e comemorar, mas tive que esperar descer pra achar minha amiga e celebrarmos juntas o resultado (ela também tinha passado). Nessa ligação também informam qual a data de embarque e se você pode ir. Quando a gente quer algo, nada é obstáculo.

Os passos seguintes parecem que passam tão rápido, mas o tempo parece que não anda, por causa da ansiedade. Tivemos que pedir carta da faculdade provando que estávamos matriculadas e que ainda tínhamos outros semestres para concluir o curso, que era presencial e que por isso teríamos que retornar se quiséssemos nos formar. Parece uma maluquice, mas é uma formalidade pra provar que você não vai migrar ilegalmente. Também recebemos a carta de aprovação e a agência nos ajuda a aplicar para o visto de trabalho temporário. Na época eles conseguiram organizar alguns grupos para o consulado (que ainda era nos Jardins em SP) e no dia tinha uma quantidade absurda de pessoas naquele lugar (tinha um cara muito indignado de ter que fazer sua entrevista naquele dia, no meio daquela garotada ensandecida toda!). Mas foi um processo bem tranquilo, no dia peguei um oficial super simpático, mal me fez perguntas e já aprovou meu visto. Em meu favor estava o fato de ter todos os documentos direitinho – carta da faculdade, IR da minha mãe, carta da Disney – e o fato de já ter tido um visto anterior, além de outra viagem pro exterior. Mas já fiquei sabendo de gente com visto negado sem aparente razão.

Dali em diante foi esperar. A agência organizou o seguro e o aéreo, escolhi voltar uns dias depois do fim do programa e ai foi partir pro abraço.

Na mala, levei roupa social pra participar dos treinamentos, sapato, várias roupas casuais e algumas de balada e só, nada que não levaria numa viagem de férias, por exemplo. As roupas de cama e banho seriam oferecidas localmente. Teve quem levasse comida, tipo miojo, para os primeiros dias, mas eu me virei nesse quesito (ou tive sorte de não passar fome). Ah, também fomos orientados a levar um pouco de dinheiro para passar as primeiras semanas antes do primeiro pagamento (que era semanal).

Embarquei com o último grupo saindo do Brasil. É legal pra já ir conhecendo as pessoas e pra não se sentir muito perdido. Na época não tinha vôo direto para Orlando e ficamos esperando uma conexão longuíssima em Miami, mas pelo menos estávamos em grupo.

Na chegada tem uma pessoa da Disney esperando por nós, para fazer o traslado até o Vista Way, um dos condomínios da Disney. É o mais antigo e é lá que é feito o check in e o exame médico. Só no check in a gente descobre onde vai morar e com quem. De lá, quem não vai morar no Vista pega outro ônibus para os respectivos condomínios.

Eu morei no Chatham Square, que na época era bem novinho, e praticamente só tinha sul-americanos (na esmagadora maioria, brasileiros), em um apartamento de 3 quartos duplos. O chato é não poder escolher seus roommates, o que pode gerar atrito (como o que a gente acabou tendo com as argentinas malditas que foram alocadas conosco). Ou você pode conhecer gente incrível, principalmente as suas vizinhas de prédio, que são quem você acaba vendo mais.

Na primeira semana tem bastante burocracia. Tivemos reuniões para explicar como funcionava a vida nos condomínios, pra tirar o seguro social (um tipo de CPF) e pra abrir conta no banco, além de assinarmos muitos papéis, que obviamente ninguém leu, mas que temos certeza que eram contratos para vender nossas almas ao rato!

Depois de toda essa burocracia, ainda tem os treinamentos. Na minha época, era pelo menos 1 dia inteiro de Traditions, uma palestra sobre tudo de Disney e de parques, uma imersão na cultura da empresa. No fim desse dia finalmente descobrimos em que parques trabalharíamos.

Logo que cheguei, minha amiga disse: “não vai no supermercado que gasta muito tempo. Vai se arrumar pra gente sair!!” E foi o que fui fazer. Busquei minha roupa de cama e de banho e fui me arrumar pra sair. Como era fim do dia, estava com fome. Passei pra conhecer a casa de outro amigo nosso e aproveitei pra filar a bóia, haha! No dia seguinte acabei fazendo o mesmo, pois cara de pau com os amigos é aqui mesmo XD Mas eventualmente acabei indo pro super mercado e descobrindo um mundo de congelados que facilitou a minha vida. Com um monte de xóvens juntos, os congelados eram nossa salvação. Lá existem refeições completas congeladas, que não eram uma maravilha, mas davam pro gasto. E eram super baratas. Eu fazia minhas compras toda semana, já sabia exatamente onde ir e o que pegar e conseguia fazer tudo entre a passagem de um ônibus e outro (ou senão tinha que esperar muito tempo pra voltar pra casa).

O valor do aluguel é descontado direto do holerith, assim como o imposto. Não sei como fazem hoje em dia, mas na época a gente tinha que entrar no sistema para solicitar a isenção desse imposto. Ou então tinha que esperar o ano seguinte pra receber o ressarcimento desse imposto no Brasil.

O pagamento era feito por pay check, que dava pra descontar em vários lugares, inclusive no banco, direto na sua conta. O problema é que o meu cartão nunca chegou, então eu acabei ficando com o dinheiro todo em mãos. Mas tinha armário trancado em casa, tipo de hostel, então era bem seguro. Eu trocava o meu no supermercado toda semana, era bem tranquilo.

Eu trabalhava no Epcot, o parque da bola. Meu primeiro dia de treinamento foi andar pelo parque inteiro, conhecendo cada canto e cada história. Teve também umas dinâmicas e já pegamos nossos uniformes. Foi quando descobrimos finalmente em quais brinquedos trabalharíamos. Pegamos nossa escala e a partir de então, shit got real.

Eu era attractions host no pavilhão The Land. Eu tinha que apresentar as atrações, dar as instruções de segurança e apertar botão, basicamente. Tinha algumas falas pra decorar, mas depois de um tempo eu já falava sem nem pensar no que estava falando, de tão automático que virou. também ficava cumprimentando quem entrava no pavilhão e dando informações sobre o parque. Ou os parques, porque sempre tinha alguma pessoa meio perdida.

Não vou mentir dizendo que era tudo flores, porque não era, mas em retrospecto, era um trabalho bem sossegado. Era ruim sim passar o dia inteiro de pé, as vezes não tinha movimento e era bem chato, mas também era divertido quando era horário do coordenador legal, ou quando estava com as brasileiras, ou os novos universitários americanos, por exemplo.

and we’re back!

Nem creio que finalmente consegui! Depois de todo esse tempo, consegui arrumar o blog! Mals ai, porque eu troquei a hospedagem e o back up funcionou só pela metade, ai tive que uppar AND inserir TO-DAS as fotos de novo… Mas tá ai, acho que agora tá tudo certo e funcionando, e o melhor, já tem DOIS post agendadinhos vindo ai XD

Canadá – Lions Youth Exchange Program 1999

Começando pelo começo, gostaria de falar sobre a minha primeira viagem internacional.

No meu aniversário de 16 anos recebi a notícia de que havia sido escolhida para participar do intercâmbio do Lions Club. O Lions é tipo o Rotary, uma sociedade de classe. Para participar do intercâmbio de meio de ano deles não é necessário fazer parte do clube. No caso específico do distrito que me ofereceu essa oportunidade, eles tinham um convênio com o curso de inglês que eu fazia, que escolhia os alunos que eles consideravam mais capazes de representar o país para as comunidades anfitriãs pelo mundo. O único requisito mesmo era falar inglês nível intermediário, para conseguir se comunicar com os anfitriões e “se virar” durante a viagem.

Tipo de viagem: Intercâmbio cultural
Duração: 38 dias
Destino: Canadá
Acomodação: Casa de família
Custos: Taxa de inscrição simbólica (US$ 250 a época) + passagem aérea + seguro viagem + dinheiro para despesas pessoais e emergências (acomodação e alimentação são de graça)
Requisitos: inglês intermediário, ter entre 15 e 21 anos

Eu estava no meio do colegial e até então nunca nem tinha viajado de avião. Meus pais deixaram claro que não teriam dinheiro para pagar por um curso no exterior, mas que se eu conseguisse uma vaga nesse intercâmbio do Lions, eles me bancariam. A escolha dos alunos é feita inteiramente a critério da escola, não existe uma inscrição ou declaração de interesse; bastava estar matriculado que qualquer aluno tinha chances de ser indicado. Então embora eu quisesse muito participar desse programa, foi uma surpresa ter sido indicada no meio do curso (quando eu viajei faltava 1 ano para o fim do curso).

A preparação incluiu diversas palestras sobre tudo, desde como se apresentar às famílias antes da chegada, até como fazer as malas (o que levar, o que é apropriado vestir), que tipo de presentes levar e depoimentos de ex-intercambistas contando como tinha sido a experiência deles. O Lions Club responsável fornece documentos para solicitação de visto, mas é o intercambista que deve resolver a papelada por conta. Assim que passamos por uma entrevista de reconhecimento (já que o Lions não tem contato prévio com os estudantes), fornecemos um pequeno dossiê que é enviado para Lions Clubs do mundo inteiro para análise, de acordo com nossas preferências e perfis. Durante a preparação os resultados vão chegando e somos informados dos locais e das famílias que nos receberão. Embora eu quisesse muito ir para a Europa, eu fazia parte do grupo mais jovem, e para ir para a Europa precisava ser um pouco mais velho, então meu dossiê foi enviado para a América do Norte.

No começo eu não fazia muita questão entre Canadá e EUA, eu meio que achava que seria a mesma coisa, mas confesso que senti um pouco de alívio quando descobri que viajaria para o Canadá, mesmo que para uma cidade pequena. Durante a preparação, tivemos que escrever a mão um trabalho sobre o nosso destino e descobri que o Canadá era um lugar fascinante!

O programa é planejado para coincidir com as férias de verão do hemisfério norte, e mesmo pegando só uma parte do período, ainda era mais tempo do que as férias da maioria dos estudantes daqui. Quando fui informada das datas da minha viagem, tive que fazer um acordo com alguns professores para não perder provas, além de ter que estudar para não tirar nenhuma nota baixa pois não teria chance de fazer prova de recuperação.

Durante os quase 40 dias, o programa dá oportunidade para as pessoas conhecerem culturas diferentes, vivenciarem diferente hábitos e participar de um acampamento com outros intercambistas que estejam na mesma área.

No embarque, o responsável pelo Lions do distrito que estava nos apoiando estava no aeroporto para dar suporte no check in e também apresentar as famílias e ter certeza de que embarcaríamos juntos. Viajamos de Continental Airlines e meu vôo teve conexão em Nova York e Minneapolis antes de chegar a Winnipeg, na província de Manitoba, Canadá. Foi bom ter companhia, pois tivemos que esperar muitas horas nos aeroportos, além dos mais experientes ajudarem aqueles que nunca haviam estado num aeroporto antes (como eu)!

Naquela época não havia um acesso tão facilitado a internet e a comunicação ainda era feita primordialmente por telefone e fax. Foi assim que avisei minha família dos detalhes do meu desembarque, e junto com a responsável pelo distrito que nos recebeu, eles estavam lá me esperando quando cheguei. E como boa marinheira de primeira viagem, tive minha mala extraviada! Mas todo mundo me ajudou muito para resolver esse problema.

Eu lembro de muitas coisas desse dia. Quando descobrimos que não haveria mesmo chances da minha mala ser achada, fomos fazer compras de supermercado, para matar o tempo enquanto esperávamos uma outra intercambista que eles hospedariam, chegar da Noruega. Lembro que era um clube de compras enorme, com vários estandes de degustação, e que eu pude escolher até o café da manhã (em casa eu tinha sorte se escolhessem um sustagem de sabor menos ruim)! Depois fomos tomar um lanche em um restaurantezinho simpático e fui apresentada aos molhos super apimentados, que seriam um hábito durante a viagem toda (naquela época eu não era nada acostumada a pimenta). E então voltamos ao aeroporto para buscar a norueguesa no fim da tarde antes de finalmente irmos para “casa”.

Minha família anfitriã (que eu chamo de família canadense) mora em uma cidadezinha pequenininha a sudeste de Winnipeg. Naquela época, moravam a mãe, o pai e uma das filhas na casa que eles haviam comprado quando os outros 2 irmãos ainda viviam junto. A casa era bem espaçosa, com 4 quartos grandes e um porão inteiro construído como sala de jogos e televisão. O jardim era médio e dava para um comitério, então era um lugar muito calmo.

Quando chegamos em casa, pedimos uma pizza, que veio cortada em quadrados (o que hoje em dia se chama de formato petisco, mas que na época só me parecia uma forma muito estranha de cortar uma coisa redonda), para jantar, antes que cada um se recolhesse. Como ainda estava claro, resolvi assitir um pouco de tv antes de escurecer. Que demorou muito pra acontecer, porque era alto verão e nessa época do ano o sol se põe lá pelas 22h!

Essa foi realmente uma experiência de muitas descobertas para mim, mas que definiu a forma como eu encaro a vida e o meu jeito de viajar.

Como não era um intercâmbio de estudos, tinhamos bastante tempo livre. O intuito era conhecer a cultura local e tentar mostar um pouco da nossa, então quanto mais tempo passassemos conversando, melhor. E acabava também sendo uma prática, porque meu inglês naquela época não era fluente e eu tive que me acostumar a acordar pensando em inglês (acordei uma vez numa viagem de carro falando português sem nem perceber).

O legal é que na minha família, o pai trabalhava de home office, então quando acordavamos, ele preparava o café da manhã (quase brunch!) e conversava um pouco, nos levava aos lugares que precisassemos (correio, papelaria) e depois nos dava liberdade pra fazer o que quisessemos. Passamos muitas manhãs e tardes vendo tv ou fazendo colagens com fotos, conversando ou passeando com a nossa “irmã canadense”.

Aos finais de semana iamos até Winipeg para passear e fazer compras. Comprei muito cd e fita vhs dos Backstreet Boys naquela época!!! Foi a primeira vez que tive esse contato com tanto consumismo, e esse tipo de liberdade pra fazer as minhas escolhas. Quase enlouqueci!

No meio da viagem, tivemos nosso acampamento, que começou em uma cidade próxima, para apresentação das 7 intercambistas (eu, a norueguesa, 2 finlandesas, 1 dinamarquesa, 1 italiana e 1 canadense). Durante uma semana viajamos pela provincia conhecendo outras cidades e outros clubes Lions e falando um pouco sobre a nossa cultura, além de convivermos umas com as outras, levantando acampamento toda manhã e montando barraca todo dia (com supervisão de adultos responsáveis que nos acompanhavam e viajaram conosco dirigindo as vans).

Quem já participou de um intercâmbio sabe como é possível formar laços de amizade tão fortes em tão pouco tempo. Em 1 semana nós éramos melhores amigas rindo e fazendo algazarra juntas, sofrendo com o calor ou com a chuva e tirando todo o tipo de foto boba. Conhecemos toda a região, comemos refeições diversas, assistimos a um jogo de beisebol, fizemos um aniversário surpresa, nadamos em lagos, saimos correndo da chuva e choramos com a despedida. Porque tudo o que é bom, dura muito pouco…

Nossa família também nos levou para viajar. Fomos até um lago, onde uns amigos emprestaram uma cabana, e visitamos um casal de amigos em outro lago, onde andamos de barco e nos divertimos com as crianças menores. Também visitamos sítios históricos (onde eu descobri essa coisa de representação de época ao vivo) e depois do acampamento voltamos a nos encontrar com algumas pessoas em Winnipeg.

Pra mim foi uma experiência de imersão numa cultura completamente nova, ainda mais naquela época sem internet. Eu vivi como eles, comi como eles, e ainda me diverti. Ir no super mercado de lá por si já era uma novidade! Também tive a chance de conviver com gente de realidades tão diferentes da minha, de fazer tantas coisas diferentes, de ver gente vivendo diferente de como eu vivia.

A experiência foi mesmo bem intensa, e considero a família que me hospedou, minha família. O povo canadense é muito simpático, muito prestativo, mas sem ser foçado. Eles fazem o que fazem pelo prazer de fazer, não porque a sociedade espera isso deles ou porque eles esperam ser reconhecidos. E eles não se levam muito a sério, levam a vida super leve.

Como eu vim de uma cidade onde as pessoas não saem do lugar comum, pra mim essa viagem foi uma janela aberta pro que o mundo tem pra oferecer, mostrando como é fascinante etsra num mundo com tanta diversidade e como é interessante conhecer realidades tão diferentes da sua. Foi a partir dessa viagem que eu soube que eu não queria sair preenchendo uma lista de pontos turisticos visitados, que eu queria conhecer cada canto do mundo da maneira que eles devem ser conhecidos, a fundo, com atenção.

tirando a poeira

Sei que andei meio sumida daqui, mas tive uma pequena crise existencial bloguística e simplesmente não rolou inspiração pra vir aqui postar.

Depois de pensar bastante, acho que já sei que rumo quero dar a este domínio, e espero conseguir criar o conteúdo com fluidez suficiente para não sumir de novo daqui.

Aguardem, que vem novidades!!!

happy birthday, my friend!

Happy birthday, Henrique!!!

É uma pena que eu não possa estar ai pra comemorar o seu dia com você… Era uma das coisas que eu queria muito fazer quando embarcamos nessa viagem louca! Mas eu sei que você está cercado de gente bacana e que vai se divertir! Espero que o dia esteja lindo e iluminado, como você! Aproveite muito essa oportunidade de ouro que a vida está te dando, todos os dias. Você é uma pessoa privilegiada, e nós que gozamos da sua amizade também!!!

o tempo não para mesmo

Nossa, já tem mais de 1 mês que voltei ao Brasil e não sei o que pensar. Parece que foi há tanto tempo, mas ao mesmo tempo parece que foi ontem!

Como eu falei, se eu pudesse ter voltado pra Inglaterra depois do nascimento do meu sobrinho, eu teria voltado sim. Sinto falta do trabalho e dos meus alunos. Queria saber como eles estão, se estão sendo bem cuidados, se estão desenvolvendo suas capacidades da melhor forma possível, etc.

E também sinto um pouco de falta da Inglaterra. Eu fui embora na melhor época, quando o tempo melhora, o dia tem mais sol, não faz tanto frio…

Também perdi de passar o solstício de verão nas pedras de Stonehenge! É o único dia do ano em que a visita é gratuita e você pode chegar perto das pedras, o lugar fica lotado e é uma verdadeira celebração. Henrique T. foi e disse que foi lindo, fiquei feliz que deu certo de ele ir, porque acho que ele queria ver isso muito mais do que eu!

Uma coisa estranha que só senti dessa vez é que me sinto muito deslocada geograficamente!!! Me sinto fisicamete afastada do resto do mundo! As Américas não sabem nada sobre ser o centro do mundo mesmo… Eu lembro que passei um tempão achando que eu era americana demais pra Europa, e talez em algum grau eu seja mesmo, mas existe algo sobre a Europa… Parece mesmo o lugar onde tudo acontece, principalmente das coisas boas!

Mas eu não tô reclamando de estar de volta não. Eu posso ver meu sobrinho crescer (tem uma mãozona!!!), brincar muito com a Brisa e ver meus amigos (que vejo muito menos do que eu gostaria). O momento político-economico é uma droga mesmo, mas tenho fé que vá melhorar e tudo voltará aos trilhos, de uma maneira mais fortalecida até.