Quebec – Crub/Crepuq Winter term 2006

Depois do inferno de trabalhar enlouquecidamente no Japão, veio a recompensa: fui estudar e morar no Canadá <3. Desde que eu voltei do primeiro intercâmbio, já queria voltar pro Canadá.

Tipo de viagem: intercâmbio da faculdade (créditos extras)
Duração: 4 meses
Destino: Lennoxville, Quebec – Canadá
Acomodação: dormitório da faculdade
Custos: Transporte + acomodação + alimentação + material
Requisitos: indicação da faculdade do Brasil, proficiência em inglês

Eu descobri esse intercâmbio porque eu trabalhava no setor de mobilidade estudantil da USP na época – por lá o processo é conhecido como USP-Quebec. É um convênio entre um conjunto de instituições brasileiras e um conjunto de instituições do Quebec para intercâmbio dos seus alunos. Os alunos interessados tem que se inscrever pela sua faculdade de origem, ou seja, a faculdade daqui escolhe qual aluno vai ter a oportunidade de concorrer com outros alunos do Brasil e do mundo a uma vaga.

Processo seletivo e inscrição

Na minha época, a USP abria a inscrição para a universidade toda (mais ou menos em março) e selecionava os alunos baseada em uma prova aplicada no próprio campus. Não é uma prova oficial do Canadá, é uma avaliação puramente uspiana (para cada convênio existe um professor encarregado e era ele que corrigia essas provas). A partir de então, de acordo com as notas, a USP informa quais os alunos passaram para a próxima fase. Então, cada um é responsável por providenciar sua documentação: histórico traduzido (juramentado), plano de estudos, formulários preenchidos. A USP então coletava todas as inscrições, enviava uma carta de recomendação junto com o pacote para o Canadá.

O aluno tinha a oportunidade de escolher até 2 universidades de mesma língua, como primeira e segunda opções. Porém, a segunda opção só é encaminhada caso a primeira não aceite o aluno.

No Quebec existem 3 universidades de língua inglesa: Concordia e McGill (uma das melhores universidades do mundo) em Montreal, e a Bishop’s, em Lennoxville. O resto é tudo em francês, tanto em Montreal e em Quebec, quanto em várias outras cidades menores.

Aprovação

A carta de aprovação vinha lá por fim de maio, diretamente ao aluno. O papel da USP era transformar a matricula “normal” para de intercâmbio (não é trancamento) e dá suporte acadêmico, mas o aluno que tem que, a partir dai, correr atrás de visto, transporte e acomodação.

No meu caso, eu me inscrevi primeiro para a Mc Gill, mesmo sabendo que teria mais sorte se me inscrevesse direto para a Bishop’s. Mas como comentei, a Mc Gill é uma das melhores faculdades do mundo e eu queria ao menos tentar. Com isso, minha aprovação demorou muito e veio só em começo de Agosto. Outra menina que conheci depois também passou pelo mesmo processo e conseguiu chegar em meados de Setembro. Como eu não tinha dinheiro, entrei em contato com a faculdade e pedi para mudar meu intercâmbio só para a partir de Janeiro do ano seguinte e foi bem tranquilo.

Visto

Para estudar menos de 6 meses no Canadá não é necessário tirar permissão de estudos. A permissão serve para também conseguir trabalhar meio período caso o aluno deseje, mas não era o meu caso. Ainda assim, na inscrição para o visto apresentei a minha aceitação na universidade. Fiz tudo do Japão, direto na embaixada em Tokyo. Me chamaram para a entrevista e acho que só queriam ver a minha cara, não me fizeram nenhuma pergunta estranha nem específica e me liberaram. Ao menos saí de lá com o visto no passaporte em mãos! Como era um visto simples, não demorou mais do que 1 mês pra sair.

Chegada, acomodação e alimentação

A Bishop’s tem um corpo discente estrangeiro relativamente grande. É uma universidade bem pequena, de menos de 3 mil alunos, em uma cidade menor ainda, então todo mundo se conhece e tenta fazer o outro se sentir bem vindo. Eles organizam transporte de Montreal para Lennoxville e explicam tudo no dia do check in na faculdade. A inscrição para a acomodação no campus é feita antes da chegada, e você pode pedir para dividir o quarto com alguém em específico, se já conhecer. Foi o meu caso, pedi para morar com a minha amiga da faculdade que já estava lá deste Setembro.

Na Bishop’s existem alguns tipos diferentes de acomodação. O Norton e o Pollack são 2 edifícios mais antigos, interligados no segundo andar, criando o No-Po. São quartos de 1 ou 2 pessoas, com banheiros comunitários (a limpeza fica a cargo de uma faxineira) compartilhados com até 8 alunos (no meu caso acho que éramos em 5 ou 6 no máximo, que eu nunca encontrava), o mesmo esquema do Mackinnon, que era um prédio maior e um pouco mais novo. No Kuhner, Munster e Abbot os quartos são individuais, com banheiros compartilhados por 2 apartamentos. No Paterson os apartamentos são completos com sala e cozinha, e banheiros para cada 2 quartos. Outra diferença entre eles é que no No-Po e no Mackinon o barulho era mais tolerado, e nos outros era lei do silêncio (lei do silêncio mesmo, não podia ficar fazendo encontrinho nos quartos, barulho nos corredores, etc).

Eu dei sorte, fiquei no último andar do Norton, em um corredor afastado dos demais quartos (havia o meu, um outro individual e a porta do banheiro. A porta da escada separava esse canto do resto do corredor dos outros quartos), perto do banheiro. Era bem tranquilo, e ainda dava pra dar festinha no quarto sem muita encheção de saco.

O quarto tinha cama, escrivaninha com telefone e armário para cada uma de nós. Na época a gente tinha que pagar a Internet a parte, hoje o wi-fi é aberto no campus todo, incluso no aluguel.

Era possível ter tv no quarto, mas cada um tinha que levar a sua.

Somente no Paterson os alunos tinham cozinha, nos outros prédios não tinha uma que pudéssemos utilizar e por isso éramos obrigados a pagar por um plano de alimentação, que é um crédito no cartão da faculdade pra ser utilizado em todo ponto de alimentação. Tinha várias opções, e os planos davam direito a descontos. Na minha época tinha uma pizzaria, uma lanchonete e um restaurante. Comia na pizzaria sempre, era barato, e almoçava quase todo dia no restaurante. Tinha desde hamburguer até prato de arroz e carne, além de saladas. Tinha dia de carne na brasa, camarões e macarrão. Comi muito bem lá, não tenho do que reclamar!

Matrícula e aulas

Logo depois que cheguei teve o dia pra matrícula dos alunos novos. Na época era um dia, no ginásio, pra falar com o representante dos departamentos. O ruim é que os alunos antigos já tinham feito matrícula no mês anterior e algumas aulas já estavam esgotadas. Mas consegui quase todas que queria. Como intercambista tinha um mínimo de créditos que eu tinha que fazer, mas foi bem tranquilo.

Fui como aluna de Economia, e escolhi uma matéria na área, a Nature of Economies. Também fiz Business, Canadia Cultural Expression e Introductory Psychology II. A adaptação a ter aulas em inglês foi bem tranquila, e na Bishop’s as salas são pequenas, a maioria de no máximo 20 alunos. Aulas mais concorridas, como a de Psicologia, eram maiores, mas eram a exceção. Fiz trabalhos e provas sem muita dificuldade, e quando precisava falar com um professor, eles eram bem receptivos.

Com as aulas definidas, comprei o material na livraria da faculdade. Tinha a opção de comprar os livros todos novinhos ou então usados. Economizei fazendo isso e tirando xerox de um deles, hehe…

Minhas aulas eram de segunda a quinta, por uma coincidência. De segunda e quarta tinha aula das 9h as 14h mais ou menos, e nas terças e quintas tinha só a aula de psicologia a tarde. Eu nem saia pra tomar café da manhã, deixava algumas guloseimas no quarto pra isso, e nos finais de semana também acordava super tarde.

Vida de intercambista

Como disse, a Bishop’s tem uma comunidade estrangeira grande e forte. Além das atividades de integração no começo das aulas, para todos os alunos novos, também tinha várias atividades para os estrangeiros. Várias festinhas fora do campus e excursões, como tentativa de esquiar e visita a uma sugar shack (pagas a parte, mas com valores bem acessíveis).

A gente também fazia as festinhas entre amigos, com menos gente, com mais alcool. No Quebec a idade mínima para consumo de alcool é 18 anos e, tirando cerveja, tem que ir na tal Liquor Store comprar. E as lojas funcionam em horários bizarros, tem que checar no site deles pra ver quando fica aberta a da sua rua…

A gente também se aventurava até o shopping de Sherbrooke, que é do lado, ou outros passeios entre amigos. Como a cidade era muito segura, a gente sempre saia a noite pra tomar um Tim Horton’s no posto mais próximo.

Eu acho que dei muita sorte. Não fui para a faculdade que eu queria, mas fui para onde deveria ir. Morar em uma cidade menor tem a vantagem de você poder conhecer a comunidade melhor, de focar nos estudos e passar bastante tempo entre amigos. A gente sempre se reunia pra ver filmes e seriados, as festinhas eram sempre entre amigos, sempre tinha uma mesa com alguém conhecido pra fazer uma refeição. Fora que o sistema acadêmico deles é incrível, com uma instituição menor a atenção aos detalhes é impressionante, tudo funciona muito bem lá e não deixa a desejar a nenhuma faculdade grande de lugar nenhum!

Peguei frio sim por lá, mas comprei os acessórios necessários por um valor bem honesto e não passei necessidade nenhuma. Os quartos eram quentinhos, assim como as salas e até os pontos de ônibus! Estudei bastante, me diverti e fiz amigos pra vida. E me apaixonei ainda mais pelo Canadá!